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Empresa com ex-presidente da Petrobras lucra quase meio bilhão com os campos que ele mesmo ajudou a vender

Maior empresa brasileira e uma das gigantes mundiais no ramo de petróleo, a Petrobras tomou um novo rumo no governo Bolsonaro ao acelerar a venda de parte de seu patrimĆ“nio — uma mudanƧa de perfil que deve ser revista no terceiro mandato de Luiz InĆ”cio Lula da Silva, a partir de janeiro de 2023.

Iniciada durante o governo de Dilma Rousseff, a polƭtica que permitiu o surgimento de novos atores privados no mercado ganhou um forte impulso com o atual governo, responsƔvel por vender a maioria dos ativos negociados pela Petrobras atƩ o momento.

Quem liderou essas aquisições foi uma pequena e até hÔ pouco tempo desconhecida petrolífera, a 3R Petroleum, que tem em sua cúpula alguns ex-diretores da Petrobras e atua exclusivamente em campos comprados da estatal.

Fundada em 2014, a 3R Petroleum tornou-se expoente do novo mercado adotando uma velha prĆ”tica do setor, a chamada porta giratória – quando executivos envolvidos em uma ponta do processo passam para o outro lado do balcĆ£o, atuando em companhias privadas que compram justamente espólio da estatal da qual vieram.

Pelo menos 12 profissionais da 3R vieram da Petrobras, inclusive o ex-presidente da estatal, Roberto Castello Branco, responsÔvel por alavancar o programa de desinvestimento no governo Bolsonaro. Castello Branco é o atual presidente do Conselho de Administração da 3R.

O caso chama a atenção por iluminar os bastidores de um mercado e seus novos atores privados, admitidos no paĆ­s desde a edição da Lei do Petróleo, em 1997, durante o governo Fernando Henrique Cardoso, responsĆ”vel por derrubar o monopólio da Petrobras. Quando a legislação entrou em vigor, o paĆ­s extraĆ­a 1 milhĆ£o de barris de petróleo por dia. Hoje, sĆ£o mais de 2,8 milhƵes de barris por dia, produzidos por mais de 40 empresas – a Petrobras Ć© a gigante absoluta, respondendo por 93% da produção.

AlĆ©m de diretores experientes e o aproveitamento no programa de desinvestimento da Petrobras, o que impulsionou a 3R foi o preƧo competitivo de algumas das aquisiƧƵes. A companhia comprou nove polos de gĆ”s e petróleo ofertados pela estatal – trĆŖs deles, ainda em fase de transição.

Todos os ativos foram negociados no governo Bolsonaro, cujo ministro da economia, Paulo Guedes, é um declarado entusiasta da privatização da Petrobras e ex-sócio (e fundador) do BTG Pactual, banco que detém uma pequena parte (3,68%) do capital social da 3R. O BTG Pactual também ajudou a levantar dinheiro para o grupo adquirir ativos.

A primeira tentativa da 3R de comprar um espólio da Petrobras ocorreu no final do governo Michel Temer, presidente cuja agenda liberalizante acelerou ainda mais o programa iniciado no governo Dilma.

O alvo era o polo de Riacho da Forquilha, no Rio Grande do Norte, com alguns dos maiores poços onshore (extração de gÔs ou petróleo realizada em terra) do Brasil. Mas a companhia renunciou ao direito de compra. Segundo noticiou-se à época, exatamente pela desconfiança do mercado em relação ao faturamento e à inexperiência da 3R no setor.

ā€œA 3R ficou responsĆ”vel pela Ć”rea que ele gerenciou na Petrobrasā€.

O cenÔrio mudou desde então. A companhia estreou na bolsa de valores hÔ dois anos e chamou a atenção do mercado financeiro exatamente num momento em que o barril de petróleo valorizou por causa da invasão na Ucrânia e da alta da inflação em todo o mundo. Nos canais de jovens investidores no YouTube, a 3R é comparada à Petrorio, outra petroleira nacional, em atividade hÔ mais tempo, que cresceu comprando campos maduros (aqueles que jÔ passaram do pico de produção) da Petrobras.

ā€œQuando a Petrobras decide vender Ć© que se inicia. ConstruĆ­mos a 3R para esse tipo de oportunidade. Somos a empresa que mais assinou contratos de compra com a Petrobras. Foi muito trabalho nessa primeira fase, onde o segredo Ć© precificar corretamenteā€, afirmou o CEO da empresa, Ricardo Savini, em entrevista ao jornal O Globo neste ano. Ele Ć© geólogo, formado na Petrobras, tendo trabalhado lĆ” por mais de uma dĆ©cada.

AlƩm do BTG Pactual, a companhia conta com outros fundos e bancos para capitalizar e realizar novas aquisiƧƵes. E tem atraƭdo parceiros de peso como a famƭlia Gerdau, dona de 10,9% do capital da empresa, por meio da Gerdau Investimento.

Neste ano, a 3R contraiu dois emprĆ©stimos de 500 milhƵes de dólares cada para poder pagar o polo Potiguar, o maior e mais valioso ativo da Petrobras que entrarĆ” para o portfólio do grupo. O acordo de compra e venda foi assinado em janeiro deste ano – o preƧo supera 1,3 bilhĆ£o de dólares. No primeiro emprĆ©stimo, anunciado num comunicado ao mercado em agosto, a 3R informou que o valor foi emprestado por um grupo de credores que conta com Morgan Stanley, Citibank, Banco do Brasil, ItaĆŗ, Deutsche Bank, entre outros. O segundo, firmado dois meses depois, foi com o BTG Pactual. As cifras poderĆ£o ser pagas em atĆ© cinco anos, mas os bons resultados mostram que o dĆ©bito deve ser honrado bem antes.

No último balanço divulgado, a 3R registrou receita líquida no terceiro trimestre deste ano de R$ 502 milhões, um aumento de 161% em relação ao mesmo período de 2021. JÔ o lucro líquido foi de R$ 469 milhões, um fabuloso crescimento de 1.364%, comparado ao trimestre anterior.

Placa da 3R indicando o inƭcio das operaƧƵes offshore da empresa.

Placa da 3R indicando o inƭcio das operaƧƵes offshore da empresa.

Foto: Divulgação/3R

Uma girada de sucesso

Nos dois anos e três meses da gestão de Castello Branco na Petrobras, a estatal vendeu 37 campos de petróleo. Só com a 3R, nesse período, os campos negociados renderam cerca de R$ 3,8 bilhões, em valores atuais.

Castello Branco virou presidente da Petrobras após as eleiƧƵes de 2018. Foi indicado por Guedes e ocupou o cargo de janeiro de 2019 atĆ© 12 de abril de 2021. No discurso de posse, ele – defensor da privatização da estatal, assim como seu padrinho polĆ­tico – criticou a existĆŖncia de monopólios e pregou menor intromissĆ£o do Estado na economia.

Durante a gestão Castello Branco, a Petrobras realizou sucessivos reajustes no preço da gasolina e do diesel provocando um choque direto com Bolsonaro, que desejava controlar os preços dos combustíveis. O presidente demitiu o executivo. Em resposta, Castello Branco acusou Bolsonaro de usar a empresa como se fosse dele e deu a entender que tinha mensagens em seu telefone corporativo que poderiam incriminÔ-lo.

Seguindo uma praxe que se tornaria recorrente ao longo do mandato, Bolsonaro colocou o assunto sob sigilo e decretou o prazo de 100 anos para acesso Ć s mensagens.

Menos de um ano depois de ser demitido, em marƧo de 2022, o mercado tomou conhecimento de que o ex-chefe da Petrobras assumiria o cargo mĆ”ximo no conselho de administração da 3R Petroleum. Apesar de ter suscitado crĆ­ticas, a ida do executivo para a petrolĆ­fera nĆ£o Ć© ilegal, jĆ” que foi respeitada a quarentena de seis meses prevista em lei para evitar conflito de interesses. A restrição temporĆ”ria tambĆ©m vale para ministros, ā€œpresidentes e diretores de empresas pĆŗblicas ou sociedades de economia mistaā€.

A Petrobras informou ao Intercept que o descumprimento dos princĆ­pios e compromissos internos (os mesmos previstos na lei em questĆ£o, nĀŗ 12.813/2013) podem acarretar medidas disciplinares, mas ressaltou que nĆ£o ā€œcomenta casos especĆ­ficosā€.

Em nota enviada ao Intercept, Castello Branco ressaltou que o desinvestimento de ā€œum ativo estĆ” sujeito a rigorosas normas de governanƧa requerendo aprovaçãoā€ de diferentes órgĆ£os da empresa, alĆ©m de auditoria do Tribunal de Contas da UniĆ£o, sendo um processo decisório do qual participam pelo menos 40 pessoas. ā€œĆ‰ incorreto dizer que a decisĆ£o Ć© do presidente [da Petrobras]ā€, afirmou.

A 3R, tambĆ©m em nota, informou que a escolha de Castelo Branco se deu por sua experiĆŖncia no setor de óleo e gĆ”s e por sua atuação como diretor de grandes companhias — como a Vale e o Banco Central.

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Roberto Castello Branco, ex-presidente da Petrobras e atual presidente do Conselho de Administração da 3R.

Foto: Tomaz Silva/AgĆŖncia Brasil

VĆ­cios do mercado

Outro caso de porta giratória verificado na relação entre a Petrobras e a 3R envolve o engenheiro elĆ©trico JosĆ© Luiz Marcusso, que trabalhou por 38 anos na estatal e ocupou posiƧƵes como a gerĆŖncia de recursos humanos e da Ć”rea de produção e exploração no EspĆ­rito Santo — estado onde se encontra o polo PeroĆ”, um dos ativos colocados Ć  venda no programa de desinvestimento.

Marcusso deixou a Petrobras em março de 2021, um mês antes da empresa vender o polo. Após cumprir os seis meses de quarentena previstos em lei, o engenheiro assumiu, jÔ no primeiro mês livre, o cargo de gerente de ativos na 3R, que acabou por fechar o negócio em PeroÔ.

Quando as operaƧƵes foram finalmente transferidas Ơ 3R, em agosto passado, quem representava a companhia era o mesmo Marcusso, que tinha comandado as operaƧƵes na Ɣrea pela Petrobras uma dƩcada antes.

ā€œEle Ć© o caso mais cristalino disso tudoā€, ressaltou Etory Sperandio, diretor do Sindipetro, o Sindicato dos Petroleiros, do EspĆ­rito Santo.

O negócio foi vantajoso, segundo o relatório de produção publicado no site da 3R, dona de 85% do polo, ao custo de 55 milhões de dólares.

Foram mais de 78 mil barris de petróleo extraídos em agosto deste ano, primeiro mês de operação, quando o valor do barril superou os 90 dólares no mercado internacional. O faturamento bruto da empresa chegou à casa de 7 milhões de dólares nos primeiros 30 dias. Em oito meses, com os preços e a produção mantidos no mesmo patamar, a 3R terÔ faturado no PeroÔ mais do que todo o valor que gastou na aquisição do ativo: 56 milhões de dólares.

Esse exemplo foi citado no levantamento realizado pelo Sindipetro do EspĆ­rito Santo, que levanta casos de conflito de interesses e critica a polĆ­tica de ā€œdesmontarā€ a Petrobras.

A estatal criada em 1953 desenvolveu ao longo dos anos uma grande expertise na formação de profissionais, o que ajuda a entender o porquĆŖ de tantos executivos e diretores de carreira serem cobiƧados por outras empresas – nacionais e estrangeiras. Alguns estĆ£o perto da aposentadoria e veem as ofertas como oportunidade para ganhar excelentes dividendos e estender o tempo Ćŗtil da carreira. A Petrobras diz possuir ā€œuma polĆ­tica de remuneração e benefĆ­cios alinhada Ć s melhores prĆ”ticas de mercadoā€.

O Intercept encontrou outro caso de porta giratória do ano passado que envolve um ex-diretor-executivo da Petrobras. Diferente dos demais casos citados, este recebeu uma reprimenda da ComissĆ£o de Ɖtica PĆŗblica da PresidĆŖncia por conflito de interesses e, por coincidĆŖncia, justamente durante a gestĆ£o de Roberto Castello Branco.

No inĆ­cio do governo Bolsonaro, houve uma troca na cĆŗpula da estatal. Na diretoria de desenvolvimento da produção e tecnologia, saiu Hugo Repsold JĆŗnior – que iria trabalhar para a 3R, abandonando o posto meses depois – e entrou Rudimar Andreis Lorenzatto.

Lorenzatto atuou na Petrobras por quase 25 anos e foi um dos profissionais formados em MacaƩ, no Rio de Janeiro, participando das descobertas do prƩ-sal, em 2006 (no final do primeiro mandato de Lula).

O processo na ComissĆ£o de Ɖtica PĆŗblica ocorreu após ele deixar a empresa no primeiro semestre de 2021. Atualmente, Lorenzatto atua na Karoon Energy Brasil, como vice-presidente de operaƧƵes.

ā€œEssa porta giratória faz parte do mercado, pelo menos desde os anos 1990. O estado se encarrega de formar e qualificar o profissional, que depois Ć© contratado por uma empresa. Assim, ele ganha muito dinheiro e ajuda a capitalizar uma empresa novaā€, contou Cloviomar Cararine, economista do Dieese.

O estado se encarrega de formar e qualificar o profissional, que depois Ć© contratado por uma empresa.

Uma caracterĆ­stica dessas pequenas e mĆ©dias empresas, segundo o economista Eduardo Costa Pinto, pesquisador do Instituto de Estudos EstratĆ©gicos de Petróleo, GĆ”s Natural e BiocombustĆ­veis, Ć© nortear a produção de acordo com o preƧo do barril do petróleo no mercado internacional: quando ele sobe, a produção automaticamente aumenta; quando cai, a produção segue o mesmo ritmo. ā€œElas vivem na dependĆŖncia do mercado internacionalā€, ressaltou Cararine.

A venda de ativos da Petrobras se justifica pela necessidade de focar a produção na exploração do pré-sal. O objetivo dos desinvestimentos é reduzir a dívida da empresa, algo que jÔ preocupava muito antes da Lava Jato, operação que puxou um grande novelo de corrupção na estatal e que serviu de estímulo para acelerar as vendas.

SĆ£o trĆŖs os perfis das empresas que adquirem os ativos: gigantes multinacionais, como Shell ou Exxon; as empresas controladas por estatais de outros paĆ­ses, como China e Noruega; e as companhias de pequeno e mĆ©dio porte nacionais ou estrangeiras, fundadas hĆ” nĆ£o muito tempo — neste grupo estĆ” a 3R.

A Petrobras informou em nota enviada ao Intercept que jĆ” concluiu mais de ā€œ50 transaƧƵes com um valor total acumulado de mais de 40 bilhƵes de dólaresā€. Elas incluem campos de petróleo, gĆ”s, refinarias e terminais, alĆ©m da venda da BR Distribuidora, rebatizada de Vibra.

Com o retorno de Lula, espera-se por mudanƧas nesse modelo de negócio. O próprio presidente eleito afirmou durante a campanha, e tem repetido nos Ćŗltimos dias, que as empresas pĆŗblicas brasileiras serĆ£o respeitadas e que a ā€œPetrobras nĆ£o vai ser fatiadaā€. Da esquerda, muitos criticam Dilma Rousseff pelas ā€œconcessƵesā€ feitas ao mercado no seu segundo mandato, interrompido precocemente.

O debate que se iniciarÔ nas próximas semanas mostrarÔ as diferentes visões políticas do mundo do petróleo: uma ala, mais liberal, vê o produto meramente como uma commodity, um bem para exportação; a outra o encara como algo estratégico para a soberania nacional e o financiamento de políticas públicas.

Para os aliados de Lula, que estendem a crítica até os anos Dilma, o programa de desinvestimento em curso nada mais é do que um eufemismo para a privatização em pedaços da empresa, um símbolo do desenvolvimentismo brasileiro.

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