Ilustração: Nicholas Steinmetz para o Intercept Brasil
DiĆ”rio do Brazil, 21 de setembro de 1884: o paĆs caminhava para finalmente decretar a abolição quando o periódico estampou o terror do mercado com a futura libertação de milhares de pessoas: āA desconfianƧa Ć© geral. O capital se retraiā. Fomos o Ćŗltimo paĆs do mundo a dar fim ao sistema escravocrata.
O Globo, 26 de abril de 1962: o mercado chorava e rangia os dentes com a criação do 13Āŗ salĆ”rio mĆnimo, que virou lei em julho de 1962 no governo do presidente JoĆ£o Goulart: ādesastrosoā, dizia a manchete. O 13Āŗ era uma demanda antiga de trabalhadores como ferroviĆ”rios e metalĆŗrgicos cansados de receber somente um panetone e um vinho barato como gratificação no final do ano.
Folha de S.Paulo, 11 de novembro de 2022: após um breve discurso no qual Lula criticou as regras fiscais do Brasil e sugeriu um Bolsa FamĆlia fora do teto de gastos, o periódico estampou: āCiti diz que mercado pode ter se enganado em relação a Lulaā. No mesmo dia, o jornal publicou um editorial cravando, apenas duas semanas após a eleição, que o presidente eleito āconseguiu derrubar grande parte das esperanƧas de que seu governo vĆ” adotar uma polĆtica econĆ“mica racional e socialmente responsĆ”velā. āMau comeƧoā Ć© o tĆtulo do texto.
Como podemos ver, a instituição mercado parece ser ainda mais frĆ”gil do que o candidato derrotado Ć presidĆŖncia da RepĆŗblica, cujos olhos estĆ£o marejados desde a noite de 30 de outubro (embora o Citibank tenha tido o maior lucro em 10 anos em 2021, quando enfrentĆ”vamos o auge da pandemia). Bastou o primeiro āse retrairā e parte dos jornais retomou o papel de arautos do fim do mundo.
Mas, depois de um impeachment vergonhoso; da prisĆ£o e impedimento de candidatura de Lula; de quase 700 mil mortos pela covid-19; de o ministro Paulo Guedes querer combater o vĆrus ācom reformasā; depois do aumento do assassinato de pessoas negras mesmo durante o lockdown; depois das filas dos caminhƵes de lixo para obter comida; depois do desespero das pessoas sem acesso a oxigĆŖnio nos hospitais; depois da inauguração do touro dourado da B3 no centro enquanto milhƵes padeciam⦠nĆ£o dĆ” simplesmente para sentir dó de um mercado quase sempre refratĆ”rio ao sofrimento da masileira.
E aqui é preciso perguntar: o que entendemos por mercado? Essa instituição é, muitas vezes, tratada pela imprensa como um ente abstrato e quase fantasmal. Ou, no extremo oposto, como uma rede supostamente homogênea que conecta desde os maiores clientes e altos funcionÔrios de um grande banco a uma cidadã de classe média guarda o pouco dinheiro que resta em uma aplicação financeira qualquer.
HĆ” nos dois tratamentos uma mistura de enganação e de hipocrisia. Porque o mercado Ć© coisa concreta āĀ e Ć© extremamente hierarquizado em seus interesses e poderes. Ć, a grosso modo, o conjunto dos cinco maiores bancos do Brasil e mais um punhado de grandes fundos de investimento. E Ć© esse mercado que esperneia diante da possibilidade de repartir uma parte do orƧamento pĆŗblico que captura (de dinheiro de impostos, sobretudo) com aqueles que nĆ£o possuem esse poder de chantagem āĀ e nĆ£o conseguem expressar suas vontades nos espaƧos dos editoriais.
Se esse mercado estĆ” sempre tĆ£o Ć vontade para apitar sobre questƵes que interferem na vida ā e na morte ā da população, vale perguntar:
Onde estavaĀ o mercado quando milhares de famĆlias foram despejadas durante a pandemia?
Onde estÔ o mercado enquanto pessoas negras são continuamente dizimadas?
Onde estĆ” o mercado enquanto diversos povos indĆgenas sĆ£o mortos e/ou sofrem ameaƧas de garimpeiros?
Onde estava o mercado quando, nos Ćŗltimos meses, o candidato derrotado saiu explodindo teto, parede e piso de gastos?
Por qual razĆ£o o mercado realiza a todo momento uma espĆ©cie de chantagem quando projeta qualquer mĆnimaĀ chance de uma economia nĆ£o voltada somente para atender aos seus próprios gemidos?
Se imprensa e mercado se incomodam com o valor de R$ 175 bilhƵes que seriam empregados anualmente para o pagamento de R$ 600 do Bolsa FamĆlia, como pensar nos cerca de R$ 100 bilhƵes gastos, tambĆ©m anualmente, somente para cobrir os custos do JudiciĆ”rio?Ā E o que dizer da tolerĆ¢ncia com os cerca de R$ 42 bilhƵes lĆquidos pagos a militares da reserva e a seus familiares somente em 2020, como mostra esse texto de Felipe Betim?
Sobre que setores na prometida reforma administrativa e previdenciÔria precisamos mesmo falar? Que superprivilégios (e eles são bastante desiguais na administração pública) deveriam ser urgentemente revistos? Por que os rendimentos dos superricos continuam sendo menos taxados do que os da população mais pobre? E por que lucros e dividendos não são taxados de maneira justa no Brasil?
Ć claro que nĆ£o dĆ” para fazer uma leitura binĆ”ria de um assunto tĆ£o tentacular. Ainda que timidamente, a heterogeneidade desse mercado se manifesta, com um ou outro CNPJ interessado nas questƵes sociais. Mas Ć© justamente binarizando o tema ā sendo tchutchuca com o mercado e tigrona com as polĆticas pĆŗblicas de combate Ć pobreza ā que a imprensa trata o assunto na maioria das vezes.
Lembro bem quando, em 7 de abril de 2021, nomes importantes do empresariado brasileiro se reuniram para jantar com Jair Bolsonaro em um rega-bofe Ć base de champanhe Veuve Clicquot no Jardim AmĆ©rica, em SĆ£o Paulo. Estavam lĆ” pessoas como Rubens Ometto, da Cosan, FlĆ”vio Rocha, do Grupo Guararapes Riachuelo, AntĆ“nio Augusto Amaral de Carvalho Filho, o āTutinhaā da Jovem Pan, e Paulo Skaf, ex-Fiesp. Bolsonaro, acompanhado pelos ministros da Economia Paulo Guedes e da SaĆŗde Marcelo Queiroga, esculhambou medidas de isolamento e chamou governadores a favor do lockdown de āvagabundosā. Foi ovacionado.
Naquele dia apenas, o paĆs registrou 3.733 mortes por covid-19. No podcast CafĆ© da ManhĆ£, da Folha, uma jornalista disse que os empresĆ”rios nĆ£o eram ideológicos, mas āpragmĆ”ticosā.
O ministro da Economia Paulo Guedes ā o mesmo que sugeriu combater o coronavĆrus com reformas ā fala Ć imprensa após jantar em que Jair Bolsonaro recriminou medidas de contenção da pandemia de covid-19.
Foto: Mathilde Missioneiro/Folhapress
āAprendam a repartir o pĆ£oā
NĆ£o tenho dĆŗvida de que o sofrimento coletivo pelo qual passamos ā e que infelizmente nĆ£o era uma novidade para milhƵes de pessoas ā deixou alguns aprendizados necessĆ”rios. Entre eles, a clareza de que desigualdade social nĆ£o Ć© uma abstração, mas uma realidade que define nossa vida, nossa morte, nosso gozo e nossa dor.
Talvez, justamente por isso, nos deparamos com um fato que me parece inĆ©dito nessa nova āretraçãoā do mercado após declaraƧƵes sobre gastos sociais: as reaƧƵes ao drama repercutido pelos editoriais foram majoritariamente desfavorĆ”veis Ć imprensa e ao mercado. Em redes sociais e nas caixas de comentĆ”rios das matĆ©rias, a maioria das manifestaƧƵes observava, em que se pese a necessidade do controle da inflação e responsabilidade fiscal, que um paĆs arrasado pela incompetĆŖncia e pilhagem nĆ£o pode continuar a responder prioritariamente a um clube seleto ā que nĆ£o se incomoda com o fato de os 10% mais ricos ganharem quase 60% de toda a renda do Brasil, segundo o World Inequality Lab.
No Instagram da Folha, os comentĆ”rios no post que critica a declaração de Lula expressam o espanto e a raiva de leitoras e leitores. āEu fico impressionada como a Folha nĆ£o se constrange em naturalizar a fome num paĆs que produz riqueza como o Brasilā, disse Gabi da Pele Preta.
No Twitter, outros tantos seguem a mesma linha: āNĆ£o adianta espernear, o combate Ć fome serĆ” prioridade no governo Lula. Esse Ć© o recado do Leonel Brizola para o mercado (Faria Lima). Engulam o choro e aprendam a repartir o pĆ£o!ā, escreveu CĆ”ssia Andrade em um tuĆte acompanhado por um discurso de Brizola, falecido em 2004. āTeto dos gastos e Paulo Guedes. Guedes furou o teto dos gastos por quatro anos. Gerou um rombo nas contas pĆŗblicas. Por que o āmercadoā e a grande imprensa nunca cobraram nada dele? Por que protegem tanto Guedes?ā, questionou Uallace Moreira.
Desigualdade social não é uma abstração, mas uma realidade que define a nossa vida, nossa morte, nosso gozo e nossa dor.
No UOL, o jornalista Chico Alves escreveu que a āDevoção da imprensa ao āmercadoā nĆ£o faz bem ao Brasilā. Monica de Bolle, economista e professora da Universidade Johns Hopkins, foi sintĆ©tica: āe que esses Ćŗltimos quatro anos sirvam para mostrar ao jornalismo econĆ“mico que sua relevĆ¢ncia depende do entendimento de que a população que nĆ£o trabalha no mercado nĆ£o estĆ” interessada em anĆ”lise econĆ“mica de elevador e sem compromisso com o paĆsā.
Ela estÔ coberta de razão: o jornalista que se comporta como ativista da bolsa de valores deixa de atuar como mediador entre instituições e população, função que, pelo menos em tese, deveria cumprir.
O mercado, por exemplo, tem relação direta com o fato de uma mĆ£e precisar atuar como domĆ©stica na pandemia e ainda ter que levar seu filho para o trabalho. O mercado tem relação direta com o fato de essa mulher perder o seu filho para o racismo. NĆ£o precisamos que os jornais nos digam isso ā eles nunca disseram, na verdade. AliĆ”s, essa Ć© outra maneira de lembrar que responsabilidade fiscal e responsabilidade social andam juntas, ainda que nĆ£o exatamente do jeito que costumamos ser alertados sobre esse fato.
Mas nós passamos por uma inflexĆ£o enquanto sociedade ā e tenho a impressĆ£o de que setores relevantes de nossa imprensa ainda nĆ£o compreenderam isso. NĆ£o tenho dĆŗvidas de que mudanƧas na postura de diversos veĆculos (sobre racismo, xenofobia, misoginia, entre outros temas) nasceram da pressĆ£o do pĆŗblico.
Um exemplo eloquente aconteceu após a divulgação de uma capa do jornal Aqui PE, do DiĆ”rio de Pernambuco. Falei a respeito dele no meu Ćŗltimo livro e o trago tambĆ©m aqui: em 1° de setembro de 2017, o Aqui PE publicou uma foto com a imagem de uma mulher negra morta, caĆda no chĆ£o e com parte da calcinha e das nĆ”degas Ć mostra. Dizia a manchete: āFlanelinha assassinada a pauladas no Recife Antigoā. A imagem das regiƵes Ćntimas de Diana gerou reaƧƵes por parte de diversos setores da sociedade. Vinte e cinco entidades ligadas Ć defesa dos direitos das mulheres e coletivos que atuam como observatórios da mĆdia publicaram uma nota de repĆŗdio. A seguir, um trecho:
Ao reforçar estereótipos de gênero, retroalimenta uma cadeia de argumentações misóginas, racistas e classistas, as quais podem desembocar num amplo feixe de prÔticas violentas. O Aqui PE precisa se retratar publicamente e manter uma linha editorial coerente com o jornalismo, enquanto campo mediador de sentidos. Do contrÔrio, continuarÔ apenas alimentando ódio e manchando essa profissão tão nobre e relevante para a vida em sociedade.
O caso chegou ao MinistĆ©rio PĆŗblico de Pernambuco, que instaurou uma ação civil pĆŗblica. A partir dela, foram acertadas as etapas da retratação e reparação que o jornal deveria cumprir. Assim, o Aqui PE publicou um āErramosā na capa. Depois, publicou uma sĆ©rie de matĆ©rias sobre direitos humanos, com a violĆŖncia contra mulheres abrindo o especial. Finalmente, jornal e entidades que assinaram a nota se comprometeram a realizar um seminĆ”rio sobre direitos humanos para profissionais e estagiĆ”rios.
Ć um caso que ilustra bem: uma sociedade atenta e cansada da militĆ¢ncia jornalĆstica antimulheres, antinegros, antipobres consegue mudar a qualidade daquilo que Ć© dito e visto sobre nós. Uma sociedade cansada da militĆ¢ncia jornalĆstica pró-mercado pode fazer o mesmo.
*Recentemente, o jornalista Rodrigo Alves, do podcast Vida de Jornalista, reuniu profissionais de todo paĆs (tive a sorte de estar entre elas e eles) para perguntar o que esperar do jornalismo após essas eleiƧƵes e o que aprendemos nesses terrĆveis anos com Bolsonaro. Recomendo a escuta e atenção especial ao que diz minha colega Nayara Felizardo, aqui do Intercept, sobre a necessidade da descentralização das coberturas jornalĆsticas.
*A pesquisa sobre as capas de jornais trazendo antigas notĆcias sobre o mercado foi realizada por Marcelo Moutinho.
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