A oportunidade na Porto, uma formação para profissionais de tecnologia, parecia interessante. Uma desenvolvedora tirou um tempo e entrou na plataforma de recrutamento Gupy para se inscrever. Fez os testes: lógica, matemÔtica e personalidade. Escreveu uma redação. Quando terminou, ficou com uma pulga atrÔs da orelha. Pediu à sua irmã que refizesse a aplicação para a vaga. Cadastro, teste e redação. Com um perfil exatamente igual, ela colou um texto genérico no campo da redação e respondeu todas as perguntas assinalando uma mesma alternativa. O resultado: a desenvolvedora foi reprovada. Sua irmã mais nova passou.
āComo um perfil que nĆ£o preencheu nenhum teste corretamente foi considerado apto? Isso me fez questionar como aconteceu essa seleçãoā, ela afirmou em um post que viralizou no LinkedIn. āSerĆ” que alguĆ©m revisa algo? A inteligĆŖncia artificial usada pelaĀ GupyĀ Ć© tĆ£o falhaā, reclamou.
A Gupy Ć© uma empresa de HRTech ā ou tecnologia aplicada aos recursos humanos. Ela, Solides e Infojobs, entre outras, sĆ£o focadas no que Ć© conhecido como People Analytics ā as tecnologias de inteligĆŖncia artificial aplicadas em processos como recrutamento e seleção. O caso da desenvolvedora evidenciou como funciona a falta de transparĆŖncia nas plataformas usadas para fazer recrutamento ā e descarte ā massivo de pessoas.
O Intercept conversou com seis profissionais de RH em grandes empresas para entender como funcionam essas ferramentas. Sob condição de anonimato por temerem retaliaƧƵes profissionais, eles afirmaram suspeitar que o algoritmo da Gupy rebaixa as notas de mulheres em comparação a homens que se candidataram para uma mesma vaga de tecnologia, por exemplo. E checar esse processo Ć© quase impossĆvel: pela necessidade de velocidade nas contrataƧƵes, os candidatos nĆ£o tĆŖm a chance de verificar se houve mesmo discriminação.
Os profissionais relatam também que graduados em universidades com notas mais baixas no MEC ainda hoje recebem pontuação inferior a formados em instituições com notas mais altas. O recorte é discriminatório de classe social, jÔ que a tecnologia exclui muitos candidatos que não tiveram oportunidade de se inscrever em determinadas faculdades.
Em um material de apresentação para clientes ao qual o Intercept teve acesso, a Gupy afirma combinar um conjunto de caracterĆsticas dos candidatos para garantir um bom match com a vaga. Entre elas, estĆ£o experiĆŖncia, formação e localização, perfil e cultura e atĆ© interesses. HĆ” tambĆ©m os critĆ©rios de idade (quanto mais novo o candidato, melhor a nota, segundo ex-funcionĆ”rios), tempo de formação (quanto mais recente a formatura, maior a sua pontuação) e moradia (quanto mais próximo da sede, maior sua chance).
Segundo a Gupy, sĆ£o as empresas que definem as regras para contratação, inclusive o peso que se dĆ” Ć s etapas do processo. Em uma live sobre o caso da desenvolvedora, a empresa diz que āprovavelmenteā o perfil da irmĆ£ dela teve um āmelhor desempenhoā. TambĆ©m admitiu que nĆ£o se sabe o motivo da irmĆ£ ter sido melhor ranqueada ā o que levanta suspeitas sobre a opacidade de seus sistemas.
Ao Intercept, a Gupy afirma que o caso se tratou de um āequĆvocoā da pessoa recrutadora ao aprovar e reprovar manualmente as pessoas candidatas nas etapas do processo. āNĆ£o houve envolvimento da InteligĆŖncia Artificial da Gupy em nenhuma parte do processo, pois a nossa tecnologia foi criada para preservar a autonomia humanaā, disse a empresa. Segundo a Gupy, qualquer decisĆ£o āĆ© de responsabilidade da pessoa responsĆ”vel pela vagaā.
āO nosso time de engenharia realiza auditorias frequentemente para identificar possĆveis vieses de comportamento das empresas para garantir que a tecnologia realmente nĆ£o aprenda com elesā, diz a Gupy. āAlĆ©m disso, temos um comitĆŖ de Ć©tica que discute este tema de maneira recorrente com pessoas de todas as camadas da empresa, principalmente a alta lideranƧaā.
NĆ£o basta se preparar profissionalmente para um cargo: Ć© preciso buscar meios de se adequar ā ou burlar ā os sistemas.
Da perspectiva de um analista de recursos humanos, ter uma ferramenta capaz de filtrar candidatos em processos seletivos que recebem milhares de currĆculos parece uma boa ideia. As startups que atuam na Ć”rea afirmam que suas tecnologias reduzem em atĆ© 73% o tempo mĆ©dio de triagem em processos seletivos, em atĆ© 78% o tempo de reposição de vagas e asseguram 75% de acerto do algoritmo na escolha de candidatos. Mais: garantem que sĆ£o capazes de gerar um match perfeito com processos seletivos mais inclusivos.
Ćs vezes, pode acontecer justamente o contrĆ”rio. Em uma queixa postada no site Reclame Aqui, um candidato identificado como Thiago afirma que jĆ” se cadastrou em mais de 40 vagas pela Gupy. NĆ£o passou pela triagem em nenhuma. āEm algumas vagas meu perfil batia 100% com a vagaā, protestou.
Reprovados em sĆ©rie pelos sistemas, candidatos tentam compreender e se apropriar das regras da tecnologia para uma tomada de decisĆ£o algorĆtmica a favor deles. NĆ£o basta se preparar profissionalmente para um cargo: Ć© preciso buscar meios de se adequar ā ou burlar ā os sistemas. TĆ©cnicas de SEO e vĆdeos como āaprenda a agradar a IA [inteligĆŖncia artificial]ā pipocam aos montes com tĆ©cnicas para conseguir enganar os robĆ“s. Repetir palavras da descrição da vaga e utilizar tĆtulos padrĆ£o para os cargos sĆ£o algumas dicas vendidas para fazer um currĆculo āalgoritmizadoā.
Botão contratar
āEu queria que depois que a IA ranqueasse, tivesse um botĆ£o CONTRATAR, e eu nem precisaria ver a pessoaā, disse uma gerente de RH em um evento da Ć”rea, segundo uma profissional ouvida pelo Intercept. Incorporado largamente por departamentos de recursos humanos, o setor estĆ” em franco crescimento no Brasil, com dezenas HRTechs em operação.
Apesar das preocupaƧƵes sobre os limites Ć©ticos das tecnologias, os profissionais de RH nĆ£o tĆŖm habilidades de leitura de dados ā por isso, acabam aceitando os resultados dos ranqueamentos de candidatos feitos pela IA como verdades absolutas. Mas, como alerta a pesquisadora Cathy OāNeil em seu livro āAlgoritmos da destruição em massaā, os processos automatizados sĆ£o treinados para procurar padrƵes históricos de sucesso. āSugerir que āo que levou ao sucesso no passado levarĆ” novamente ao sucesso no futuroā Ć© a lógica de quem constrói e usa [essas tecnologias]ā. E esse sucesso Ć© medido por critĆ©rios como rapidez, em vez de justiƧa ou transparĆŖncia āĀ que nĆ£o parecem ser levados em consideração ā, ela disse em uma entrevista.
No livro āRacismo AlgorĆtmicoā, o pesquisador TarcĆzio Silva explica que tomadas de decisĆ£o com ādesenhos preditivos, como ranking de currĆculos, escores de risco, identificação de caracterĆsticas biomĆ©tricas e assim por dianteā frequentemente focam unicamente no āaspecto correlacional dos dados para realizar os cĆ”lculosā. AlĆ©m disso, para ele, prĆ”ticas de āauditoria algorĆtmica sĆ£o desenvolvidas em constante jogo de āgato e ratoāā, ou seja, tratativas paliativas de ātentativa e erroā que funcionam como uma ācortina de fumaƧaā para defesa das corporaƧƵes.
VÔrios estudos jÔ mostraram que a automação dificultou significativamente a vida e a carreira de alguns grupos de candidatos. O sistema de aprendizado de mÔquina pode processar automaticamente correlações machistas, racistas e classistas como decisões corretas. Isso porque o sistema armazena o comportamento dos recrutadores e, a partir disso, os replica no reconhecimento dos candidatos que considera perfeitos para as vagas. Ou seja, replicam tradicionais vieses, automatizando e intensificando discriminações e preconceitos.
Além disso, ao replicar o padrão histórico de contratação, esses sistemas reforçam os padrões de seleção num momento em que o mundo corporativo fala tanto em diversidade. Por exemplo: numa empresa que só contrata formados de uma determinada universidade, a aprendizagem de mÔquina vai entender que aquela instituição de ensino deve pontuar mais nas próximas seleções. Ou, se a empresa contrata mais profissionais com indicação, nas próximas seleções, a IA aprende que candidatos com indicações devem pontuar mais, mesmo não cumprindo tantos requisitos quanto os outros.
Tais aprendizados e quantificações descontextualizadas podem acarretar consequências danosas tanto aos potenciais funcionÔrios quanto às empresas, por potencializar a contratação de pessoas menos preparadas.
Ilustração: Gustavo Magalhães para o Intercept Brasil
ReforƧando o viƩs
Hoje, a lĆder de mercado no setor Ć© a brasileira Gupy. Em fevereiro de 2022, a empresa captou o maior investimento em HRTech na AmĆ©rica Latina ā R$ 500 milhƵes em uma rodada liderada pelos fundos SoftBank Latin America e Riverwood ā e adquiriu sua principal concorrente, a Kenoby. A aquisição fez a plataforma ultrapassar a marca de 36 milhƵes de usuĆ”rios em busca de novas oportunidades de trabalho.
A empresa tem como clientes como Ambev, Vivo, Kraft Heinz, Cielo, TelefÓnica, Reserva, Lojas Americanas, Gol e Renner e afirma gerir mais de 3,5 mil inscrições por hora em sua plataforma. Segundo a Gupy, os critérios de avaliação são diferentes em cada vaga e exclusivos de cada cliente.
A Gupy disse ao Intercept que sua tecnologia de inteligĆŖncia artificial, chamada Gaia, āfoi criada para ser Ć©ticaā e treinada para interpretar āo contexto do currĆculoā, nĆ£o apenas palavas-chave. A empresa tambĆ©m diz que āo fator humano Ć© essencial e insubstituĆvelā e que, por isso, sua tecnologia foi criada āpara preservar a autonomia humanaā.
A Gupy afirma que sua tecnologia consegue revisar ātodos os currĆculos com uma grande redução de vieses, etnia, idade, gĆŖnero, orientação sexual, entre outrosā, e que sĆ£o levados em conta 150 critĆ©rios na anĆ”lise, que incluem experiĆŖncias como ātrabalhos voluntĆ”riosā. A empresa tambĆ©m afirma que produz um ārelatório de explicabilidadeā para as empresas clientes, que detalham como as tecnologias chegaram a determinados resultados.
Em 2018, especialistas descobriram que, apesar de ser programada para não julgar por gênero, a IA não aprovava mulheres em sua seleção de candidatos.
A Rocketmat, outra empresa da Ć”rea, presta serviƧos para contratantes como Fiat, Creditas, Klabin e Albert Einstein. A empresa tem uma metodologia diferente: calcula o āscoreā do candidato ā ou seja, dĆ” a ele uma nota, como acontece com as empresas de crĆ©dito.
Segundo a RocketMat, a inteligĆŖncia artificial utiliza parĆ¢metros como ācompetĆŖncias das organizaƧƵes que vocĆŖ jĆ” trabalhouā para calcular o score. Ou seja, se um candidato jĆ” trabalhou na empresa X, a IA presume que o profissional possui competĆŖncias que nĆ£o foram descritas no CV apenas pelo histórico profissional. A empresa ainda prevĆŖ o uso de um software de reconhecimento facial para gerar āinsights para as entrevistas de triagemā.
Ao Intercept, a RocketMat diz que seu mĆ©todo de trabalho Ć© ācientĆficoā, que nĆ£o coleta dados sensĆveis e um de seus focos Ć© ājustamente combater o viĆ©s e a discriminação nas seleƧƵesā. āProporcionamos ferramentas para garantir que todos os candidatos sejam analisados pelos profissionais que conduzem um processo seletivo de forma equĆ¢nimeā, disse a empresa, por meio de sua assessoria de imprensa. A Rocketmat tambĆ©m afirma que o score de cada candidato Ć© disponibilizado para as empresas que conduzem o processo seletivo, e que os critĆ©rios utilizados na anĆ”lise só podem ser divulgados aos candidatos se o contratante autorizar.
Por mais que possam se esforƧar na tentativa de mitigar risco, por tratar-se de uma tecnologia ainda nĆ£o compreendida em seu total funcionamento, nĆ£o Ć© possĆvel impedir o aparecimento de vieses. Discriminação de gĆŖnero, localidade, raƧa, formação educacional e interpretaƧƵes preconceituosas de caracterĆsticas fĆsicas em reconhecimento de imagem e vĆdeo podem estar acontecendo ā e nós nĆ£o sabemos.
A Amazon, por exemplo, descontinuou a utilização de inteligĆŖncia artificial na Ć”rea de seleção de pessoas depois de perceber que seus robĆ“s recrutadores preferiam homens. Em 2015, seus especialistas em machine learning descobriram que, apesar de ser programada para nĆ£o julgar por gĆŖnero, a IA nĆ£o aprovava mulheres em sua seleção de candidatos. Ou seja, a ferramenta nĆ£o se comportava de maneira neutra diante de currĆculos de homens e mulheres. Pelo contrĆ”rio, penalizava todos os currĆculos que incluĆssem palavras como āfeminino/mulher/meninaā e, mesmo editando a programação, buscando tornĆ”-la neutra a esses termos especĆficos, a equipe concluiu que nĆ£o poderia impedir que outras correlaƧƵes discriminatórias fossem criadas pelas mĆ”quinas.
Em setembro de 2021, um estudo da Universidade de Harvard com mais de 8 mil trabalhadores e mais de 2,2 mil executivos dos EUA, Reino Unido e Alemanha mostrou que as tecnologias de inteligência artificial em processos de seleção excluem milhões de trabalhadores qualificados da disputa por vagas, atuando como barreiras para o encontro entre as empresas e trabalhadores que possuem as habilidades de que elas precisam.
A pesquisa afirma que, apesar de mais de 90% dos empregadores pesquisados usarem inteligĆŖncia artificial para filtrar ou classificar as habilidades dos candidatos, esses sistemas sĆ£o falhos. Eles sĆ£o projetados para maximizar a eficiĆŖncia do processo e baseiam-se em correlaƧƵes, por vezes, nĆ£o contextualizadas e preconceituosas. Por exemplo, a maioria usa crenƧas comoĀ āum diploma Ć© sinĆ“nimo de habilidades como Ć©tica de trabalho e auto-eficĆ”ciaā. Da mesma maneira, atua baseado em crenƧas negativas, como excluir um candidato por possuir um āperĆodo de tempo sem registro de empregoā em seu CV, independentemente de suas qualificaƧƵes.
Isso acontece, por exemplo, com pessoas que foram obrigadas a parar a carreira para cuidar de familiares, por licença-maternidade, mudança, demissão por causa da crise ou que jÔ pagaram pena por crimes cometidos no passado. Entre os executivos pesquisados por Harvard, alguns disseram que ainda esperam que a tecnologia possa ser adequada para atendê-los melhor, enquanto outros estão recorrendo a métodos menos automatizados para encontrar as pessoas certas.
A pesquisa evidencia ainda que 88% dos empregadores confessam perceber que candidatos altamente qualificados sĆ£o excluĆdos do processo por nĆ£o descreverem em seus currĆculos palavras idĆŖnticas Ć s que foram utilizadas na descrição da vaga. Esse nĆŗmero Ć© ainda maior ā 94% ā no caso dos trabalhadores de mĆ©dia qualificação.
Sem controle
Em teoria, desde setembro de 2020, pela Lei Geral de Proteção de Dados, a LGPD, a instituição que captura e controla os dados ā neste caso, as HRTechs ā tĆŖm a obrigação de entregar os critĆ©rios de seleção e exclusĆ£o de maneira detalhada, compreensĆvel e clara Ć sociedade. A LGPD garante tambĆ©m o direito de qualquer brasileiro pedir uma explicação sobre os critĆ©rios utilizados para uma decisĆ£o automatizada que utilizou seus dados pessoais para violar qualquer tipo de interesse.
Isso significa que, vocĆŖ se sentir prejudicado em uma recusa no processo de seleção por meios algorĆtmicos em que foi impossibilitado de acessar uma oportunidade de trabalho, vocĆŖ tem o direito de solicitar legalmente uma investigação para auditarĀ e compreender se os motivos para isso foram justos ou nĆ£o. Ou seja: as empresas jĆ” sĆ£o obrigadas a informar os critĆ©rios com os quais essas decisƵes sĆ£o tomadas.
āQuem utilizar uma ferramenta automatizada de seleção de currĆculo para a entrega de um resultado positivo ou negativo para o candidato tem obrigação de explicar quais sĆ£o os critĆ©rios de maneira claraā, me disse Luca Belli, professor de Direito da FGV no Rio e coordenador do Centro de Tecnologia e Sociedade da FGV. Mas, segundo ele, isso nĆ£o estĆ” acontecendo. āDe um lado, porque pouquĆssimas pessoas estĆ£o cientes dos seus direitos e, do outro lado, porque temos uma fiscalização muito limitada dessas obrigaƧƵesā.
Contudo, o professor explica que na prĆ”tica este Ć© um problema sĆ©rio de transparĆŖncia da utilização dessas novas tecnologias. Para todo o Brasil, temos apenas 70 funcionĆ”rios na composição da ANPD, a Autoridade Nacional de Proteção de Dados, responsĆ”vel por averiguar o cumprimento da LGPD ā o que torna impossĆvel efetivar as (potenciais) milhares de investigaƧƵes. AlĆ©m disso, a lei diz que āos órgĆ£os responsĆ”veis PODEM investigarā ā nĆ£o que necessariamente devem atuar para que a HRTech ou as empresas demonstrem que o processo de contratação nĆ£o Ć© discriminatório.
HĆ” pressĆ£o da sociedade e de acadĆŖmicos por mais transparĆŖncia na forma como algoritmos sĆ£o programados. Por todo o mundo, jĆ” foram mapeadas mais de 80 iniciativas pĆŗblico-privadas descrevendo princĆpios para orientar o desenvolvimento Ć©tico e a governanƧa de inteligĆŖncia artificial. O Brasil chegou a discutir um projeto de lei para regulamentar o setor, mas a proposta ainda Ć© embrionĆ”ria ā e frĆ”gil, com um texto permissivo e pró-indĆŗstria. Por exemplo: ela fala apenas em āmitigaçãoā do risco de discriminação. A LGPD, que jĆ” estĆ” em vigor, Ć© muito mais enfĆ”tica: fala em āproibiçãoā.
Para piorar, um dos artigos do Marco Legal de InteligĆŖncia Artificial, como foi batizado o Projeto de Lei 21/2020, exige que as vĆtimas das discriminaƧƵes automatizadas provem que os danos foram causados pela inteligĆŖncia artificial. Desde o ano passado, uma comissĆ£o de especialistas se dedica a discutir o tema. Os legisladores estudaram o assunto, mas tĆŖm demorado a aprovar regras para evitar danos.
A Unesco jĆ” lanƧou, neste ano, um documento com recomendaƧƵes Ć©tica na InteligĆŖncia Artificial.Ā Elas incluem princĆpios como transparĆŖncia, defesa de direitos humanos e promoção da diversidade, alĆ©m de justiƧa e nĆ£o discriminação. AtĆ© agora, porĆ©m, as propostas estĆ£o apenas no campo das ideias ā e continuamos sem mecanismos para averiguar, denunciar e corrigir erros de determinaƧƵes algorĆtmicas.
Essa reportagem é fruto das Bolsas de Tecnoinvestigações para Repórteres Negros, uma iniciativa do Intercept em parceria com Conectas, Data Privacy Brasil e Data Labe.
The post Como plataformas de inteligĆŖncia artificial podem discriminar mulheres, idosos e faculdades populares em processos seletivos appeared first on The Intercept.
