Foto: Pedro Vilela/Getty Images
āBombas caseiras feitas de garrafas com gasolina, rojƵes, óleo derramado intencionalmente na pista, āmiguelitosā (pregos usados para furar pneus), pedras, alĆ©m de barricadas com pneus queimados, latƵes de lixo, e troncos de Ć”rvores cortados e jogados deliberadamente na pistaā, foi assim que a PolĆcia RodoviĆ”ria Federal de Santa Catarina relatou em nota como foram os protestos golpistas no estado nessa Ćŗltima semana.
A corporação afirmou ainda que os atos foram na maior parte dos casos āocorrĆŖncias criminosas e violentas, promovidas no perĆodo noturno por baderneiros, homens encapuzados extremamente violentos e coordenadosā. Segundo a PRF, na maior parte dos cerca de 30 pontos de bloqueio, āos mĆ©todos utilizados lembraram os de terroristasā. Apesar da nota dura, a polĆcia catarinense prendeu apenas um terrorista, que foi solto no dia seguinte e jĆ” estĆ” dormindo no quentinho da sua cama.
A escalada golpista jÔ ultrapassou a fronteira do terrorismo. Os atos violentos aconteceram também em outros estados. No Mato-Grosso, onde Bolsonaro teve quase 70% dos votos, os golpistas se mostraram ainda mais numerosos e violentos. No interior do estado, homens armados atacaram a base da concessionÔria que administra a BR-163 com tiros e coquetéis molotov. Queimaram guinchos, ambulâncias, os postos de pedÔgio e atiraram contra uma viatura policial.
Em RondĆ“nia, os terroristas destruĆram uma tubulação de Ć”gua de um reservatório do municĆpio de Ariquemes, deixando parte da população sem abastecimento de Ć”gua. CaminhƵes foram depredados, saqueados e incendiados. Um caminhoneiro que tentou furar o bloqueio foi perseguido, apedrejado e imobilizado com uma corda.
No interior do ParanÔ, uma van em excursão para o Beto Carrero, com 12 alunos e uma professora, colidiu com uma barreira de terra erguida pelos terroristas no meio da madrugada. Alguns estudantes ficaram feridos.
JĆ” faz quase um mĆŖs que os golpistas estĆ£o nas ruas incitando as ForƧas Armadas a se levantarem contra outras instituiƧƵes ā o que Ć© inequivocamente um crime ā sem que nada lhes aconteƧa. Esses protestos sĆ£o criminosos mesmo quando pacĆficos. Como se jĆ” nĆ£o bastasse a impunidade, esses golpistas ainda costumam ser tratados a pĆ£o-de-ló pelas polĆcias que deveriam prendĆŖ-los. A escalada de violĆŖncia iniciada por parte desses criminosos na Ćŗltima semana Ć©, portanto, uma consequĆŖncia natural. Naturalizou-se o crime e, nessa toada, o próximo passo serĆ” a naturalização de atos terroristas.Ā A escalada de violĆŖncia se iniciou logo após uma decisĆ£o do ministro Alexandre de Moraes que bloqueou as contas bancĆ”rias de 43 bosonaristas suspeitos de financiarem os protestos na frente dos quartĆ©is e nas estradas. A represĆ”lia Ć© clara. Os criminosos estĆ£o testando os limites do judiciĆ”rio. Os ataques violentos tendem a aumentar se os lĆderes e financiadores do golpismo nĆ£o comeƧarem a ser presos.
EsqueƧa o vovĆ“ e a vovó reaƧa que vĆ£o de bengala e bandeira do Brasil pedir golpe na frente de quartel. EsqueƧa os idiotas que estĆ£o nas ruas pedindo socorro aos alienĆgenas. Esses reaƧas caricatos sĆ£o inofensivos, apesar de igualmente criminosos. Agora a coisa extrapolou para a bandidagem armada e organizada. Uma bandidagem que atira na polĆcia, taca fogo em caminhĆ£o e ambulĆ¢ncia, amarra e apedreja motorista que fura bloqueio, rouba carga de caminhĆ£o e protagoniza uma sĆ©rie de outros atos terroristas.
O bolsonarismo estÔ agonizando, mas isso não deve ser motivo para comemorarmos.
Tudo isso estĆ” acontecendo sob o silĆŖncio conivente do presidente da RepĆŗblica, que abandonou o trabalho desde que perdeu a eleição e só voltou recentemente para organizar uma outra frente do golpismo. Bolsonaro busca criar fatos polĆticos que faƧam com que os golpistas nas ruas sigam mobilizados. O Ćŗltimo factóide foi uma ação aberta no TSEĀ pedindo a anulação dos votos de quase 280 mil urnas que estariam com problemas. Valdemar da Costa Neto, aquele que sempre defendeu a lisura das urnas eletrĆ“nicas, foi pressionado por Bolsonaro para contestar judicialmente o segundo turno das eleiƧƵes. A petição foi baseada numa auditoria fuleira criada por um instituto ligado ao bolsonarismo.
Alexandre de Moraes, o terrĆvel XandĆ£o, deu 24 horas para o PL apresentar tambĆ©m a auditoria dessas mesmas urnas no primeiro turno, o que nĆ£o aconteceu. Claro, a anulação das urnas no primeiro turno poderia prejudicar a eleição da base parlamentar e dos governadores do PL. Valdemar, entĆ£o, convocou uma nova coletiva e recuou, dizendo que nĆ£o pretendia anular as eleiƧƵes. Mas nĆ£o deu muito certo. No despacho em que pede para a corregedoria eleitoral apurar o caso, XandĆ£o apontou litigĆ¢ncia de mĆ”-fĆ© por parte da coligação bolsonarista e citou āpossĆvel cometimento de crimes comuns e eleitorais com a finalidade de tumultuar o próprio regime democrĆ”tico brasileiroā. AlĆ©m disso, impĆ“s uma multa de R$ 22,9 milhƵes Ć coligação.
Valdemar sabe que nĆ£o hĆ” problema nenhum com as urnas, mas cumpre as ordens do capitĆ£o porque tem uma dĆvida āĀ e o rabo preso ā com ele. O PL se agigantou com a chegada de polĆticos bolsonaristas, tornando-se a maior bancada da CĆ¢mara e do Senado. Hoje, Valdemar Ć© o polĆtico que hoje comanda o maior orƧamento do fundo partidĆ”rio. E, como se sabe, Ć© esse tipo de coisa que historicamente moveu Valdemar na polĆtica brasileira. XandĆ£o acertou em mexer no bolso da turma, ainda que isso seja insuficiente para frear a violĆŖncia do movimento golpista nas ruas e pode atĆ© alimentĆ”-la.
No dia seguinte Ć decisĆ£o, Bolsonaro interrompeu o abandono de emprego mais uma vez para se reunir com a cĆŗpula das ForƧas Armadas, que sĆ£o direta e indiretamente responsĆ”veis pela escalada de violĆŖncia nos atos golpistas. Indiretamente por se omitir, diretamente por instigar os atos criminosos com declaraƧƵes de apoio. Uma sĆ©rie de generais e coronĆ©is tem feito declaraƧƵes em apoio aos criminosos que se aglomeram em frente aos quartĆ©is e nas estradas. Ataques dos militares a XandĆ£o, Lula, Alckmin e PT, por exemplo, foram normalizados. Esse tipo de manifestação polĆtico-partidĆ”ria de agentes das ForƧas Armadas Ć© proibida, mas sabemos que eles nĆ£o temem a lei.
A Ćŗltima vez que Bolsonaro havia se reunido com a cĆŗpula das ForƧas Armadas foi no Ćŗltimo dia 11. Horas depois da reuniĆ£o, comandantes do ExĆ©rcito, Marinha e AeronĆ”utica divulgaram uma carta em que nĆ£o recriminam os protestos golpistas em frente a quartĆ©is Brasil afora e defenderam a liberdade dos āmanifestantesā. Nesta semana, o general Braga Netto, foi alĆ©m e incentivou de maneira velada os criminosos a continuarem a cometer crimes: ānĆ£o percam a fĆ©. Ć só o que eu posso falar agoraā, disse depois de abraƧar os golpistas na rua.
O carĆ”ter terrorista que os atos golpistas tĆŖm tomado sĆ£o resultado direto do incentivo do Presidente da RepĆŗblica, das ForƧas Armadas e de polĆticos bolsonaristas. Esses movimentos nĆ£o podem mais ser tratados de maneira cĆ“mica, como sendo fruto de uma meia dĆŗzia de lunĆ”ticos que acreditam em mentiras absurdas do Whatsapp. Por trĆ”s deles existe uma mĆ”quina financiada, que nĆ£o deve ser subestimada. De qualquer maneira, essa mĆ”quina comeƧa a dar sinais de problema. O bolsonarismo estĆ” agonizando, mas isso nĆ£o deve ser motivo para comemorarmos. Ć nesse momento em que ele se torna mais perigoso. O golpe nĆ£o vingarĆ”, mas o estrago pode ficar muito maior. Qual serĆ” o próximo passo dos terroristas? Homens-bomba?
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