Categories
Audio Sources - Full Text Articles

Ultrapassada, grande imprensa critica fenƓmenos da internet enquanto reproduz racismo e fake news

GettyImages-1190020381-coluna-imprensa-jornalismo-choquei-header

Ilustração: Rodrigo Bento/The Intercept Brasil; Getty Images

O mundo mudou. Nós mudamos. O jeito de nos comunicarmos também. Mas o jeito de fazer jornalismo não mudou tanto quanto deveria. E isso é especialmente grave por ser a imprensa um pilar da democracia. Como fiscalizadora dos poderes, ela deveria acompanhar as mudanças da sociedade, se não encampÔ-las.

A imprensa como a conheci quando fiz faculdade, lÔ no início dos anos 2000, teima em se apegar a conceitos que jÔ se foram, a dogmas que jÔ caíram, a modelos de negócios que não se sustentam mais.

Quando digo apegos, me refiro desde Ć  defesa da fĆ”bula da isenção jornalĆ­stica, passando pelos questionĆ”veis dois-ladismo (a ideia nĆ£o isonĆ“mica de que ouvir dois lados da questĆ£o a equilibra) e jornalismo declaratório (reprodução acrĆ­tica de declaraƧƵes das fontes), e chegando ao absurdo de reproduzir racismo e preconceitos e atĆ© publicar mentiras sob a roupagem de artigos de opiniĆ£o. Isso tudo sem perder a empĆ”fia e o ar de superioridade moral conferido pelo selo de ā€œgrande imprensaā€ e sem fazer a autocrĆ­tica que tanto cobra de certos partidos.

Muito jĆ” foi dito sobre o papel da mĆ­dia no fortalecimento do antipetismo rasteiro. Sobre racismo, tambĆ©m. Mas a Ćŗltima semana nos trouxe tantos exemplos do despreparo, da prepotĆŖncia e do desdĆ©m de grandes veĆ­culos com a democracia e a sociedade que Ć© preciso se aprofundar no assunto e nas transformaƧƵes desse mercado. Ele pode piorar ou melhorar – e, com ele, nossa sociedade.

Em 26 de novembro, a Folha publicou um informe publicitĆ”rio sobre constelação familiar – ā€œterapiaā€ criada pelo ex-padre alemĆ£o Bert Hellinger, questionada por revitimizar mulheres e relativizar de crimes como violĆŖncia domĆ©stica e estupro de vulnerĆ”vel – sem nenhuma sinalização de que aquilo era propaganda. Depois de quase cinco horas de muitas crĆ­ticas no Twitter, foi publicada umaā€errataā€œ, que nĆ£o era tĆ£o errata assim.

Apesar de admitir que tal prĆ”tica nĆ£o tem comprovação cientĆ­fica, a Folha nĆ£o disse que o conteĆŗdo Ć© patrocinado pela Personare, empresa focada em numerologia, tarĆ“, astrologia e afins. Alice Duarte, que assina a ā€œopiniĆ£oā€, Ć© a responsĆ”vel pelas constelaƧƵes vendidas pela empresa.

Deslize Ć© trocar ā€˜mas’ por ā€˜mais’. Editores e repórteres precisam ser responsabilizados por atitudes racistas.

A mesma Folha foi bastante criticada durante a pandemia por publicar um anĆŗncio intitulado ā€œManifesto pela Vidaā€œ, bancado por mĆ©dicos bolsonaristas a favor do exaustivamente questionado (e de fato ineficaz) tratamento precoce. Nesta, a Folha nĆ£o estava sozinha. O mesmo anĆŗncio foi publicado n’O Globo, do Rio; na Zero Hora, do Rio Grande do Sul; no Correio Braziliense, do Distrito Federal; no pernambucano Jornal do Commercio; no Estado de Minas; no cearense O Povo; e no Correio, da Bahia.

No mesmo dia do ā€œartigo de opiniĆ£o publicitĆ”riaā€ da Folha sobre constelação familiar, o EstadĆ£o tuitou sobre o ataque a tiros numa escola no EspĆ­rito Santo. O crime, cometido por um adolescente branco com sĆ­mbolos nazistas, foi retratado no tweet com a foto de uma mĆ£o negra segurando uma arma.

Isso nĆ£o Ć© um deslize. Deslize Ć© trocar ā€œmasā€ por ā€œmaisā€. Editores, repórteres e tomadores de decisĆ£o precisam ser responsabilizados por suas atitudes racistas, como foi a da escolha da imagem. O EstadĆ£o foi duramente criticado, inclusive por autoridades negras, como Marina Silva, e a tag #EstadĆ£oRacista ficou entre as mais citadas naquele dia.

O racismo estÔ tão incrustado em nossa sociedade que mesmo quando um branco comete crime atroz, como o de Aracruz (ES), usa-se a pele negra para representar o ato violento. Versão inicial do post do @Estadao para analisar ataques a escolas foi ilustrada com uma mão preta armada. pic.twitter.com/zhOFFXNT2n

— Marina Silva (@MarinaSilva) November 27, 2022

Horas depois, a Choquei, perfil de entretenimento que tambĆ©m publica algumas notĆ­cias, refez o tweet, usando partes do mesmo texto, mas com uma mĆ£o branca segurando a arma. Era uma provocação. A treta entre a Choquei e a grande imprensa escalou depois da publicação de uma reportagem da Folha afirmando que o perfil faz ā€œcopia e colaā€ sem checagem e sem crĆ©ditos (o que nĆ£o Ć© 100% mentira). Tempos atrĆ”s, o perfil foi um dos responsĆ”veis por espalhar a lorota sobre a existĆŖncia de RatanabĆ”, uma inexistente cidade perdida na AmazĆ“nia. A diferenƧa Ć© que o perfil admitiu o erro e pediu desculpas, sem meias-palavras ou eufemismos.

Depois da matéria, muitas pessoas saíram em defesa da Choquei, apontando mÔs condutas da Folha, que vão desde as propagandas acima citadas e pela publicação de uma ficha criminal falsa atribuída à então presidente Dilma Rousseff até o empréstimo de carros do jornal para agentes da ditadura.

Desprezando o novo

Em meio Ć  Copa, o fenĆ“meno da comunicação Casimiro Miguel bateu o recorde mundial de audiĆŖncia em lives do YouTube com as transmissƵes dos jogos pela CazĆ©TV. Foram mais de 4 milhƵes de espectadores simultĆ¢neos na plataforma. Na Folha, o influenciador, que saiu do SBT e do canal TNT para fechar contratos com Google e Amazon na Copa, alĆ©m do Fifa+, foi diminuĆ­do quando comparado a comentaristas tradicionais de futebol. Para o colunista Nelson de SĆ”, Casimiro lembra ā€œmais um animador, como Fausto Silva ou Milton Neves, quando surgiram no rĆ”dio, com mais talento para o humorā€.

Esse Ć© o tipo de mudanƧa que nĆ£o tem volta. A audiĆŖncia do Casimiro mostra que ele tem pĆŗblico – e nĆ£o Ć© pouco! As pessoas querem assistir Ć  Copa do Mundo com o ā€œhumoristaā€. A Nelson de SĆ”, talvez seja preciso lembrar que a Globo conta gols dos campeonatos todos os domingos com a ajuda de cavalinhos falantes e tem entre seus produtos editorias de fofoca e entretenimento.

O mercado vai continuar a mudar e tem gente de olho muito aberto para isso. O criador da Choquei Raphael de Souza era, até 2014, vendedor de chip da Tim. No próximo ano, ele pretende lançar um site de notícias próprio.

O projeto se emancipou em 2021 do casting da Banca Digital, projeto dos empresÔrios Murilo Henare e FÔtima Pissarra, da agência Mynd. A Banca reúne cerca de 30 contas de entretenimento do Instagram com dezenas de milhões de seguidores, que lucram com publicidade e até posicionamentos políticos e sociais nas redes.

Henare é filho de uma dona de casa e de um recepcionista de farmÔcia que começou a trabalhar aos 12 anos, dando expediente na lanchonete de um primo. Ele explodiu na internet comentando a novela Avenida Brasil e não parou mais. Entendeu o mercado, o que comunicar e como.

Aos crĆ­ticos de Casimiro, talvez seja preciso lembrar que a Globo conta gols com a ajuda de cavalinhos falantes.

No fim de novembro, a Banca Digital contratou Vanessa Campos como head de jornalismo. Ela é especialista em estratégia e planejamento de comunicação e passou por grandes agências de comunicação e publicidade como WMcCann, Grupo TV1 e FSB, atendendo marcas, startups e órgãos públicos.

O movimento da Banca para entrar no jornalismo começou no início deste ano, quando eles assinaram um contrato para assumir a liderança da operação do BuzzFeed no Brasil, site que misturava jornalismo e entretenimento e que encerrou as operações de notícias em 2020. O entretenimento seguiu vivo.

Em julho passado, a Banca foi acusada de usar os perfis que gerencia para pautar debates de forma não muito saudÔvel: supostamente manipulando publicidade, forjando engajamento e  fazendo seus filiados derrubarem perfis de desafetos. A empresa disse que as acusações não procedem, mas a pulga se alojou atrÔs da orelha de quem estÔ atento à comunicação digital e ao jornalismo.

HĆ” anos que as pessoas se comunicam e consomem notĆ­cias de forma diferente, e os mercados de entretenimento e jornalismo tĆŖm muito a aprender um com o outro. Mas Ć© preciso frisar: jornalismo Ć© uma coisa, fofoca Ć© outra. E hĆ” pĆŗblico para todos.

The post Ultrapassada, grande imprensa critica fenƓmenos da internet enquanto reproduz racismo e fake news appeared first on The Intercept.