Jair Bolsonaro vai desocupar o PalĆ”cio da Alvorada, mas deixa seu maior legado em dois estados: Rio de Janeiro e SĆ£o Paulo. ClĆ”udio Castro, do PL, reeleito governador, segue a linha dura do ābandido bom Ć© bandido mortoā ā em apenas um ano e meio de governo, acumulou trĆŖs das cinco maiores chacinas no estado. JĆ” os paulistas elegeram o carioca TarcĆsio de Freitas, do Republicanos, ex-ministro de infraestrutura de Bolsonaro, que pode replicar o modelo fluminense de seguranƧa pĆŗblica.
Com Castro nĆ£o hĆ” muitas surpresas. Em sintonia com as forƧas de seguranƧa do Rio, espera-se o mesmo esquema falido de operaƧƵes policiais espetacularizadas, caras e letais dos Ćŗltimos anos. A incógnita vem do comando de TarcĆsio. Em campanha, ele afirmou que iria extinguir a Secretaria de SeguranƧa PĆŗblica e atribuir aos comandantes das polĆcias civil e militar o status de secretĆ”rios, o que desintegraria as tomadas de decisƵes entre as duas corporaƧƵes, como acontece no Rio desde 2019.
Também prometeu acabar com o uso de câmeras nas fardas de policiais militares. Antes do segundo turno, recuou nas duas promessas. Mas não se sabe que decisões tomarÔ em seu mandato e, até agora, manteve apenas a indicação jÔ anunciada do recém-eleito deputado federal capitão Derrite, amigo de Eduardo Bolsonaro, para chefiar a pasta de segurança.
Mas, segundo Renato SĆ©rgio de Lima, diretor presidente do Fórum Brasileiro de SeguranƧa PĆŗblica, TarcĆsio nĆ£o deve encontrar um caminho muito fĆ”cil para transformar SĆ£o Paulo no Rio de Janeiro. āA PolĆcia Militar de SĆ£o Paulo Ć© muito ciosa da sua institucionalidade e de sua profissionalização, preza pelos mecanismos de controle dos policiais. O projeto das cĆ¢meras corporais, por exemplo, veio da corporaçãoā, explicou. āEntĆ£o, o TarcĆsio vai conseguir fazer tudo que ele quer? NĆ£o. Quem vai decidir, no fundo, Ć© a própria corporaçãoā.
Ainda assim, os dois bolsonaristas podem levar seus estados a retrocessos na Ć”rea de seguranƧa pĆŗblica ou fortalecĆŖ-los, no caso do Rio. Nessa entrevista, Lima avalia os possĆveis efeitos desses dois governos ā e como o presidente eleito Lula pode frear o descontrole policial que ambicionam. Leia na Ćntegra a seguir.
O diretor presidente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Renato Sérgio de Lima.
Foto: Wanezza Soares
Intercept ā O que pode mudar nas polĆticas de seguranƧa pĆŗblica de SĆ£o Paulo com a chegada de TarcĆsio de Freitas ao governo?
Renato SĆ©rgio de Lima ā A gente precisa primeiro analisar a seguranƧa pĆŗblica no Brasil. Existe uma caracterĆstica estruturante, muito debatida após a Constituição, que, parafraseando Tomasi di Lampedusa, no plano polĆtico āmuda tudo para ficar tudo no mesmo lugarā. Nos Ćŗltimos 30 anos, os elementos centrais nas polĆticas de seguranƧa, as normas infraconstitucionais, continuam intactas. E elas dizem muito respeito Ć lógica da ditadura. A lei que organiza as polĆcias militares Ć© de 1967, o código penal de 1940, as alteraƧƵes no processo penal sĆ£o de 1941, e a Lei de Execução Penal Ć© de 1984. E isso pressiona muito os estados, jĆ” que o mundo mudou, as caracterĆsticas do crime mudaram ā afinal, sĆ£o mais de 80 anos de vigĆŖncia dessas normas.
EntĆ£o, o que o governador pode fazer, jĆ” que as normas sĆ£o federais? Pode investir em tecnologia, sistemas, eventualmente dar aumento salarial, mas nĆ£o muito mais que isso. Como o mundo todo reconhece que a tecnologia Ć© uma das formas das polĆcias se profissionalizarem e se legitimarem, o que houve foi um esforƧo de modernização legislativa. Mas muito residual e sempre dependente de mudanƧas que na gestĆ£o pĆŗblica que a gente chama de incrementais. Ou seja, implementaƧƵes como o Infocrim [banco de dados de informaƧƵes criminais baseado nos registros de boletins de ocorrĆŖncia], em SĆ£o Paulo, criado em 1998, ou com mudanƧas operacionais das polĆcias. Mas no plano polĆtico e estratĆ©gico, vocĆŖ nunca teve uma polĆtica efetiva de seguranƧa pĆŗblica em SĆ£o Paulo ou no Rio.
Em governos de direita e de esquerda, sempre houve uma subordinação polĆtica Ć dimensĆ£o operacional das polĆcias. Ou seja, ao que a polĆcia acha que precisa ser feito: mais armas, mais viaturas, mais tecnologia, mais uniforme e isso vai resolver. Isso mostra um certo limite. Só para dar um exemplo, sĆ£o polĆticas que reforƧam tanto questƵes como o racismo estrutural, sem incidir no fato de quem mais morre sĆ£o jovens negros das periferias, quanto tambĆ©m nas formas de legitimar o uso da forƧa.
AtĆ© porque os governadores nĆ£o tĆŖm autonomia para mudar as carreiras, as formas de atuação. Enviamos ao grupo de transição do governo uma proposta para reduzir a influĆŖncia da PresidĆŖncia e do ExĆ©rcito sobre as polĆcias. Porque atĆ© hoje quem controla e coordena, na teoria, a norma e a formação dos policiais Ć© o ExĆ©rcito. Mas ele nĆ£o o faz. Quem faz Ć© a própria polĆcia, que acaba tendo dois chefes: o ExĆ©rcito e o governador. Cada um faz um pedaƧo e muitas vezes nĆ£o pensa em projetos para o problema todo. No fim das contas, a própria polĆcia decide o que quer fazer. E aĆ elas se acostumaram com a autonomia excessiva de dizer o que Ć© certo ou errado, o que Ć© ordem pĆŗblica, o que Ć© poder de polĆcia, que nĆ£o sĆ£o termos claramente definidos na legislação.
āTarcĆsio sinalizou que prefere o modelo fluminense ao paulista. NĆ£o existe comparação entre qual o modelo mais eficiente, em termos de gestĆ£o de polĆcia e gestĆ£o da seguranƧaā, avaliou Lima. āEsse Ć© um modelo ideológicoā.
Foto: TomzƩ Fonseca/Futura Press/Folhapress
Na prĆ”tica, isso quer dizer que TarcĆsio nĆ£o conseguirĆ” mexer em muita coisa? Ele havia anunciado, durante a campanha, que extinguiria a Secretaria de SeguranƧa PĆŗblica para nomear secretĆ”rios de polĆcia, aos moldes do Rio de Janeiro, mas depois voltou atrĆ”s.
A gente ainda nĆ£o sabe se voltou atrĆ”s mesmo. Mas SĆ£o Paulo tem uma diferenƧa histórica: criou, por questƵes muito mais antigas, que tĆŖm a ver com a Revolução Constitucionalista de 1932, a ideia de identidade do paulista, e a polĆcia Ć© um forƧa pĆŗblica muito ciosa da sua institucionalidade. E sempre foi diferente do restante de outras polĆcias militares do paĆs, porque ela investiu muito na sua profissionalização. EntĆ£o, sempre foi uma forƧa policial muito ciosa do seu poder e da sua capacidade de determinar a agenda daquilo que faz.
āAs cĆ¢meras fiscalizam os pedidos de uso privado da forƧa pĆŗblica, daĆ a resistĆŖncia internaā.
Quando o PSDB ganhou as eleiƧƵes e fica quase 30 anos no governo, o que existe Ć© uma substituição desse clamor ābandido bom Ć© bandido mortoā, dos anos de Paulo Maluf [governador de SĆ£o Paulo de 1979 a 1982; conservador, apostou no policiamento ostensivo] e Luiz AntĆ“nio Fleury Filho [governador de SĆ£o Paulo de 1991 a 1994, com gestĆ£o marcada pelo massacre do Carandiru], por ādeixa a polĆcia fazer aquilo que Ć© tecnicamente muito qualificada para fazerā, porque o governo de SĆ£o Paulo investiu e investe muito nas polĆcias, principalmente na PM. Ć um problema crĆ“nico no Brasil: a ideia de seguranƧa pĆŗblica como sinĆ“nimo de investimentos nas polĆcias militares. Investe-se pouco em melhoria da investigação, racionalização da legislação e de normas que regem as atividades policiais.
Em SĆ£o Paulo, alĆ©m do Infocrim, tivemos vĆ”rios investimentos a partir do episódio da Favela Naval, que o governo adotou como ponto de inflexĆ£o para uma profissionalização da polĆcia e ali quando ele criou o Sistema de GestĆ£o da PolĆcia Militar do Estado de SĆ£o Paulo. A PM de SĆ£o Paulo estuda vĆ”rios mecanismos de revisĆ£o de supervisĆ£o e controle porque, para ela, o mais importante Ć© a sua institucionalidade. Um coronel fica ali por cinco anos no cargo, depois vai obrigatoriamente para a reserva. EntĆ£o, o que o policial faz na ponta precisa ser controlado. NĆ£o só para medir o uso da forƧa, jĆ” que essa Ć© uma variĆ”vel polĆtica de decisĆ£o, mas tambĆ©m para que a própria corporação consiga saber o que o policial da ponta estĆ” fazendo ou quem estĆ” mandando fazĆŖ-lo. Porque existe uma voz de comando Ćŗnica na PolĆcia Militar de SĆ£o Paulo, que Ć© a própria PolĆcia Militar ā e nĆ£o o coronel A ou B.
Isso nĆ£o acontece no Rio de Janeiro, onde quem toma a decisĆ£o Ć© o policial da ponta. Por lĆ”, valoriza-se a independĆŖncia do policial na determinação do que Ć© certo ou nĆ£o, quando hĆ” excludente de ilicitude ou nĆ£o. Ou seja, a corporação nĆ£o tem a solidez organizacional que tem a PolĆcia Militar de SĆ£o Paulo.
As polĆcias paulistas estĆ£o acostumadas com a Secretaria de SeguranƧa, porque ela foi criada em 1978. Mas por um projeto ideológico, existe uma corrente das polĆcias militares que acha que precisa reproduzir o que acontece no Rio, que Ć© fazer Secretaria de Estado de PolĆcia Militar, Secretaria de Estado de PolĆcia Civil. Esse desmembramento Ć© muito ruim, porque seguranƧa nĆ£o Ć© só PolĆcia Militar, nĆ£o Ć© só PolĆcia Civil, Ć© soma delas e de outras polĆticas.
HĆ” outros modelos, como o de Santa Catarina. Eles adotaram um conselho de gestĆ£o, em que a cada seis meses cada um dos vinculados (PM, polĆcia civil, bombeiros, perĆcia, etc.) assume a presidĆŖncia do comitĆŖ, que Ć© deliberativo e vinculativo. Ou seja, as normas decididas ali precisam ser cumpridas por todos. HĆ” espaƧo de coordenação? Sim. EntĆ£o a secretaria nĆ£o Ć© o Ćŗnico modelo possĆvel, mas Ć© fundamental que vocĆŖ tenha um órgĆ£o. Porque no modelo de separação do Rio de Janeiro, ninguĆ©m sabe o que fazer. O Instituto de SeguranƧa PĆŗblica produz dados, mas ninguĆ©m pensa a polĆtica de seguranƧa. Em 2019, por exemplo, foi criada a PolĆcia Penal que, teoricamente, precisa estar articulada Ć s outras. Mas o que faz a PolĆcia Penal? Ela investiga? Ela nĆ£o investiga? Ć um processo que precisa ser pensado.
De qualquer forma, TarcĆsio sinalizou que prefere o modelo fluminense ao paulista. NĆ£o existe comparação entre qual o modelo mais eficiente, em termos de gestĆ£o de polĆcia e gestĆ£o da seguranƧa, seja pelos Ćndices criminais ou pela profissionalização das instituiƧƵes. Esse Ć© um modelo ideológico. EntĆ£o o que o bolsonarismo entende como eficiente?
Se o bolsonarismo quer matar, entĆ£o o modelo fluminense Ć© mais eficiente, jĆ” que existe menos controle sobre a polĆcia. Se a legislação e a constituição forem a base, o Rio claramente nĆ£o Ć© mais eficiente.
TarcĆsio tambĆ©m falou sobre retirar cĆ¢meras de seguranƧas das fardas dos policiais.
Esse Ć© um programa da PolĆcia Militar. Enquanto todo mundo fazia pressĆ£o para controle do uso da forƧa, a própria polĆcia jĆ” estudava protótipos, usos, formas de controle. E fez isso por sua conta e planejamento. Quando o coronel Marcelo Vieira Salles assumiu, em 2018, ele bancou que esses estudos continuassem. E, em 2020, ao tomar posse da pasta, o coronel Fernando Alencar Medeiros seguiu a mesma linha: āVamos fazer, porque a polĆcia precisa ter uma nova forma de controle e legitimidadeā.
Ć um projeto da corporação. NĆ£o serĆ” tĆ£o fĆ”cil para TarcĆsio desfazer isso. Alguns candidatos bolsonaristas mais radicais tentaram desqualificar o projeto das cĆ¢meras como algo de dois ou trĆŖs coronĆ©is, porque eles sabem que a corporação assumiu o projeto. E uma forma de desqualificĆ”-lo Ć© dizer que nĆ£o Ć© um projeto da corporação, que os PMs nĆ£o querem as cĆ¢meras. EntĆ£o esse Ć© um jogo interno que precisa ficar claro, mas a corporação atĆ© agora disse: āNĆ£o, a gente querā.
āA PM de SĆ£o Paulo tem um modelo que dĆ” mais autonomia Ć corporação do que ao policial. Ć isso que estĆ” em jogoā.
E tem vĆ”rios fatores importantes e problemas internacionais, inclusive, com as empresas que oferecem essa tecnologia. EntĆ£o vocĆŖ tem, por um lado, o lobby empresarial e, do outro, a própria corporação dizendo que Ć© um investimento criado por ela mesma. Existe essa tensĆ£o bĆ”sica em relação a SĆ£o Paulo. TarcĆsio prometeu derrubar o uso das cĆ¢meras corporais porque o grupo mais bolsonarista Ć© totalmente contra, principalmente aqueles que sĆ£o praƧas. E sĆ£o contra porque tem uma variĆ”vel muito importante: as cĆ¢meras fiscalizam, fazem um microcontrole do cotidiano. NĆ£o Ć© só a questĆ£o da corrupção, tem tambĆ©m o favor polĆtico do comandante, de querer atender o dono da padaria. AĆ o cara paga um cafezinho. Ou de prestar serviƧo de seguranƧa privada usando equipamento pĆŗblico, ou atender ao pedido de determinado vereador em tal regiĆ£o. As cĆ¢meras fiscalizam os pedidos de uso privado da forƧa pĆŗblica, daĆ a resistĆŖncia interna. NĆ£o Ć© sobre ādar liberdade aos policiaisā. As pessoas nĆ£o querem controle porque isso desfaz acordos, nĆ£o só aqueles de corrupção direta, mas o microfavor, a forma de fazer a gestĆ£o privada da atividade policial. Por isso Ć© tĆ£o importante esse projeto e, no Rio de Janeiro, jamais vai acontecer.
Você mencionou os governos de Paulo Maluf e Luiz AntÓnio Fleury Filho. DÔ para dizer que São Paulo estÔ voltando para esse lugar? Podemos esperar de novo uma espetacularização das operações policiais, como ocorre no Rio?
O que vejo em relação Ć SĆ£o Paulo Ć© uma tentativa de desconstrução do investimento de profissionalização da PolĆcia Militar feito nos Ćŗltimos 30 anos ā do qual a própria corporação se orgulha. Se profissionalização Ć© a principal ferramenta de identidade de uma polĆcia, entĆ£o o objetivo Ć© refazer esse modelo, adotando aquele que dĆ” mais autonomia ao policial. EntĆ£o, de novo, a polĆcia de SĆ£o Paulo construiu um modelo que dĆ” mais autonomia Ć corporação e nĆ£o ao policial. Ć isso que estĆ” em jogo.
Nos 30 anos de PSDB em SĆ£o Paulo, a sociedade civil e a imprensa pressionaram a discussĆ£o sobre os Ćndices de letalidade policial. AĆ veio caso do Castelinho e, anos depois, em 2011, mais 11 mortes numa ação da Rota e o entĆ£o governador Geraldo Alckmin disse: āQuem nĆ£o reagiu estĆ” vivoā. Acaba colocando de uma forma dĆŗbia, porque ele sabe que para boa parcela da população ābandido bom Ć© bandido mortoā, entĆ£o de certa forma isso retroalimenta a legitimidade das polĆcias. E os governos dependem das polĆcias para se viabilizarem. Porque nĆ£o precisa dar um golpe escancarado. Os policiais podem, por exemplo, fazer uma operação tartaruga [reduzir a eficiĆŖncia do trabalho para prejudicar as estatĆsticas]. E aĆ as coisas crescem e o governo se inviabiliza politicamente. Todos sabem que a relação com a polĆcia, principalmente a militar, Ć© uma relação muito difĆcil. VocĆŖ tem de equilibrar na ponta do lĆ”pis isso tudo, jĆ” que as polĆcias gozam hoje de um poder de influĆŖncia muito grande.
O TarcĆsio vai conseguir fazer tudo que ele quer? NĆ£o. Quem vai decidir, no fundo, Ć© a própria corporação. O ClĆ”udio Castro [governador reeleito no Rio] vai conseguir fazer o que ele quer? NĆ£o necessariamente. Na verdade, ele estĆ” surfando mais ou menos na mesma opiniĆ£o da corporação. EntĆ£o tende a ser mais efetivo no alinhamento de suas pautas, ao contrĆ”rio do que eventualmente acontecerĆ” com TarcĆsio em SĆ£o Paulo.
VocĆŖ tem um outro problema histórico: as deficiĆŖncias de estrutura das polĆcias civis. SĆ£o 14 carreiras, sem capacidade de execução orƧamentĆ”ria. No Rio Ć© ainda pior, a PolĆcia Civil Ć© mais militarizada do que muitas polĆcias militares, em relação Ć letalidade de suas aƧƵes [por matar mais que outras polĆcias civis em vez de investigar]. O problema Ć© que o ISP nĆ£o divulga os dados separados de mortes geradas por policiais militares e civis, Ć© tudo unificado.
Como o senhor avalia a indicação do Capitão Derrite para a pasta de Segurança Pública em São Paulo?
Ele Ć© um representante do bolsonarismo de ābandido bom Ć© bandido mortoā. Isso Ć© inegĆ”vel, ele se construiu politicamente sendo dono de um canal no Facebook com mais de 1 milhĆ£o de seguidores, espetacularizando a atividade policial. Mas ele Ć© um capitĆ£o de 38 anos, o que, para uma polĆcia como a paulista, significa que um capitĆ£o que mal saiu da atividade vai mandar em majores, tenentes, coronĆ©is. Isso de certa forma quebra a espinha dorsal do militarismo. Se o objetivo Ć© acabar com a institucionalidade construĆda, essa Ć© uma forma de fazer todos esses oficiais superiores se aposentarem. E aĆ o Derrite coloca pessoas mais novas, que concordam com ele e, sendo o mais velho, impƵe a própria versĆ£o.
HĆ” um risco de aumentar o poder das milĆcias em SĆ£o Paulo?
Quando vocĆŖ investe no descontrole e no fortalecimento da lideranƧa individual em detrimento da lideranƧa da corporação, um dos riscos Ć© a milicialização. Corrupção jĆ” existe, mas o modelo de milĆcia do Rio nĆ£o existe exatamente igual em nenhum lugar do Brasil: com controle territorial e da forƧa, comĆ©rcio da economia subterrĆ¢nea e atividades ilegais. Esses elementos, de certa forma, jĆ” sĆ£o explorados pelo crime organizado de SĆ£o Paulo, que tem um peso e vai desafiar qualquer tentativa desse tipo.
De todo modo, o risco jĆ” existe e Ć© contido justamente com o fortalecimento da corporação. Quando vocĆŖ amplia a autonomia, o risco pode aumentar. Mas dizer que esse serĆ” o resultado automĆ”tico só fortalece o bolsonarismo. Porque vai para o discurso ātodo mundo Ć© contra a polĆciaā. Essa discussĆ£o precisa de muito cuidado, porque o risco estĆ” presente no Brasil inteiro. Policiais militares como funcionĆ”rios do trĆ”fico, pistoleiros, seguranƧas, isso existe em qualquer lugar ā Ć© o que a própria corporação busca inibir quando cria os programas de cĆ¢meras corporais. Se afirmarmos que serĆ” uma consequĆŖncia automĆ”tica, vocĆŖ enfraquece o bom policial. Ć preciso tratar a questĆ£o da milicialização em SĆ£o Paulo como um risco, e nĆ£o um fato consumado.
Como o governo federal pode intervir nas polĆticas de seguranƧa pĆŗblica adotadas em estados comandados por bolsonaristas?
HĆ” trĆŖs cenĆ”rios possĆveis. No primeiro deles, inegavelmente, os governadores terĆ£o de conversar com o governo federal. Quem estiver Ć frente do MinistĆ©rio da JustiƧa e da SeguranƧa PĆŗblica, ou dos ministĆ©rios, caso sejam desmembrados, terĆ” de liberar uma pauta de fiscalização, controle, sem revanchismo, mas de forma muito enfĆ”tica (ou seja, nĆ£o deixar que as polĆcias determinem a pauta) e ao mesmo tempo conversar sobre as necessidades de uma polĆtica de seguranƧa pĆŗblica. AĆ vocĆŖ consegue conter esses avanƧos bolsonaristas na Ć”rea.
āA seguranƧa jamais serĆ” o caos que foi com Bolsonaro, mas o governo Lula tem que ser pressionadoā.
No segundo cenĆ”rio, ficamos na mesma dos Ćŗltimos 30 anos: o ministro ou os seus assistentes fazem a lógica do āvamos fazer mais dinheiro. Vamos passar mais dinheiro, negociar com o governadorā. AĆ a tendĆŖncia Ć© esgarƧar um pouco. E quando acabarem os quatro anos do TarcĆsio, provavelmente teremos uma polĆcia mais capenga, com o profissionalismo comprometido em nome de um projeto polĆtico. Mas ainda nĆ£o vai ter ganhado totalmente, porque a corporação paulista Ć© muito forte.
O terceiro cenĆ”rio Ć© o ideal: com gestores que entendem o problema e ajudem a construir a valorização das polĆcias, com a construção de uma nova normativa infraconstitucional para prestação de contas, com mĆ©tricas baseadas em evidĆŖncias, com informaƧƵes de novas doutrinas internacionais sobre investigação. Esse Ć© o cenĆ”rio perfeito, mas duvido de sua implementação, pelo debate que estĆ” sendo feito na transição.
Por quĆŖ?
O debate, pelo que se vĆŖ nas declaraƧƵes pĆŗblicas, Ć© ānĆ£o vamos focar em nada que tem a ver com a agenda dos governadoresā. E ignoram que para fortalecer o governador vocĆŖ precisa atualizar as normas. Ć uma pauta que gera desgaste, mas isso precisa ser feito. Precisamos de profissionais que pensem em seguranƧa pĆŗblica para alĆ©m do direito penal. SeguranƧa captura agenda da direita e da esquerda. Inegavelmente, a discussĆ£o envolve crimes, penas, justiƧa criminal. Mas Ć© muito mais que isso. Ć a garantia de que os direitos de ir e vir sejam respeitados. Ć disso que se trata quando decido subir o morro na Vila Cruzeiro para matar 20 e poucas pessoas, apreender uma dĆŗzia de fuzis e parar o dia de 70 mil pessoas ā uma operação militar que nĆ£o se justifica! Ć preciso fazer de outra forma.
Como esse diƔlogo com o novo governo se faz necessƔrio, dƔ para imaginar um cenƔrio melhor tambƩm para o Rio de Janeiro?
Se vocĆŖ perceber, nĆ£o tem ninguĆ©m do Rio de Janeiro na equipe de transição. O [Marcelo] Freixo nĆ£o conseguiu entrar na equipe da Ć”rea de seguranƧa. EntĆ£o, a realpolitik muitas vezes pode fazer com que a negociação com o ClĆ”udio Castro se dĆŖ por outras questƵes maiores. E a seguranƧa nĆ£o precisa ser o caos que seria com Bolsonaro, jamais serĆ” igual, mas o governo Lula precisa ser pressionado. A sociedade civil e a imprensa precisam mostrar claramente que alguns fundamentos precisam ser reconstruĆdos ā e talvez nĆ£o da forma como atĆ© hoje foram ā, garantir que os governos sejam responsabilizados e que claramente as polĆcias sejam controladas. O grande desafio Ć© controlar a polĆcia. E a esquerda muitas vezes nĆ£o sabe fazer isso.
O governo precisa dizer como controlar a polĆcia, respeitando as corporaƧƵes. Elas nĆ£o sĆ£o inimigas, isso Ć© fundamental. Ć preciso valorizar a corporação, com condiƧƵes mĆnimas de trabalho aos mais de 700 mil servidores. Mas a valorização nĆ£o pode ser confundida com autonomia total para a polĆcia fazer o que acha certo, e sim dentro das garantias do estado de direito Ć cidadania no Brasil. Parece difĆcil, mas Ć© essa a disputa na agenda do governo Lula. Ć uma agenda muito aparentemente residual, mas central para o modelo de desenvolvimento brasileiro.
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