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Entrevista: ‘Se o bolsonarismo quer matar, modelo de seguranƧa do Rio Ć© mais eficiente’, diz pesquisador

Jair Bolsonaro vai desocupar o PalĆ”cio da Alvorada, mas deixa seu maior legado em dois estados: Rio de Janeiro e SĆ£o Paulo. ClĆ”udio Castro, do PL, reeleito governador, segue a linha dura do ā€œbandido bom Ć© bandido mortoā€ – em apenas um ano e meio de governo, acumulou trĆŖs das cinco maiores chacinas no estado. JĆ” os paulistas elegeram o carioca TarcĆ­sio de Freitas, do Republicanos, ex-ministro de infraestrutura de Bolsonaro, que pode replicar o modelo fluminense de seguranƧa pĆŗblica.

Com Castro não hÔ muitas surpresas. Em sintonia com as forças de segurança do Rio, espera-se o mesmo esquema falido de operações policiais espetacularizadas, caras e letais dos últimos anos. A incógnita vem do comando de Tarcísio. Em campanha, ele afirmou que iria extinguir a Secretaria de Segurança Pública e atribuir aos comandantes das polícias civil e militar o status de secretÔrios, o que desintegraria as tomadas de decisões entre as duas corporações, como acontece no Rio desde 2019.

Também prometeu acabar com o uso de câmeras nas fardas de policiais militares. Antes do segundo turno, recuou nas duas promessas. Mas não se sabe que decisões tomarÔ em seu mandato e, até agora, manteve apenas a indicação jÔ anunciada do recém-eleito deputado federal capitão Derrite, amigo de Eduardo Bolsonaro, para chefiar a pasta de segurança.

Mas, segundo Renato SĆ©rgio de Lima, diretor presidente do Fórum Brasileiro de SeguranƧa PĆŗblica, TarcĆ­sio nĆ£o deve encontrar um caminho muito fĆ”cil para transformar SĆ£o Paulo no Rio de Janeiro. ā€œA PolĆ­cia Militar de SĆ£o Paulo Ć© muito ciosa da sua institucionalidade e de sua profissionalização, preza pelos mecanismos de controle dos policiais. O projeto das cĆ¢meras corporais, por exemplo, veio da corporaçãoā€, explicou. ā€œEntĆ£o, o TarcĆ­sio vai conseguir fazer tudo que ele quer? NĆ£o. Quem vai decidir, no fundo, Ć© a própria corporaçãoā€.

Ainda assim, os dois bolsonaristas podem levar seus estados a retrocessos na Ć”rea de seguranƧa pĆŗblica ou fortalecĆŖ-los, no caso do Rio. Nessa entrevista, Lima avalia os possĆ­veis efeitos desses dois governos – e como o presidente eleito Lula pode frear o descontrole policial que ambicionam. Leia na Ć­ntegra a seguir.

O diretor presidente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública,  Renato Sérgio de Lima.

O diretor presidente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Renato Sérgio de Lima.

Foto: Wanezza Soares

Intercept – O que pode mudar nas polĆ­ticas de seguranƧa pĆŗblica de SĆ£o Paulo com a chegada de TarcĆ­sio de Freitas ao governo?

Renato SĆ©rgio de Lima – A gente precisa primeiro analisar a seguranƧa pĆŗblica no Brasil. Existe uma caracterĆ­stica estruturante, muito debatida após a Constituição, que, parafraseando Tomasi di Lampedusa, no plano polĆ­tico ā€œmuda tudo para ficar tudo no mesmo lugarā€. Nos Ćŗltimos 30 anos, os elementos centrais nas polĆ­ticas de seguranƧa, as normas infraconstitucionais, continuam intactas. E elas dizem muito respeito Ć  lógica da ditadura. A lei que organiza as polĆ­cias militares Ć© de 1967, o código penal de 1940, as alteraƧƵes no processo penal sĆ£o de 1941, e a Lei de Execução Penal Ć© de 1984. E isso pressiona muito os estados, jĆ” que o mundo mudou, as caracterĆ­sticas do crime mudaram – afinal, sĆ£o mais de 80 anos de vigĆŖncia dessas normas.

Então, o que o governador pode fazer, jÔ que as normas são federais? Pode investir em tecnologia, sistemas, eventualmente dar aumento salarial, mas não muito mais que isso. Como o mundo todo reconhece que a tecnologia é uma das formas das polícias se profissionalizarem e se legitimarem, o que houve foi um esforço de modernização legislativa. Mas muito residual e sempre dependente de mudanças que na gestão pública que a gente chama de incrementais. Ou seja, implementações como o Infocrim [banco de dados de informações criminais baseado nos registros de boletins de ocorrência], em São Paulo, criado em 1998, ou com mudanças operacionais das polícias. Mas no plano político e estratégico, você nunca teve uma política efetiva de segurança pública em São Paulo ou no Rio.

Em governos de direita e de esquerda, sempre houve uma subordinação política à dimensão operacional das polícias. Ou seja, ao que a polícia acha que precisa ser feito: mais armas, mais viaturas, mais tecnologia, mais uniforme e isso vai resolver. Isso mostra um certo limite. Só para dar um exemplo, são políticas que reforçam tanto questões como o racismo estrutural, sem incidir no fato de quem mais morre são jovens negros das periferias, quanto também nas formas de legitimar o uso da força.

Até porque os governadores não têm autonomia para mudar as carreiras, as formas de atuação. Enviamos ao grupo de transição do governo uma proposta para reduzir a influência da Presidência e do Exército sobre as polícias. Porque até hoje quem controla e coordena, na teoria, a norma e a formação dos policiais é o Exército. Mas ele não o faz. Quem faz é a própria polícia, que acaba tendo dois chefes: o Exército e o governador. Cada um faz um pedaço e muitas vezes não pensa em projetos para o problema todo. No fim das contas, a própria polícia decide o que quer fazer. E aí elas se acostumaram com a autonomia excessiva de dizer o que é certo ou errado, o que é ordem pública, o que é poder de polícia, que não são termos claramente definidos na legislação.

"Tarcísio sinalizou que prefere o modelo fluminense ao paulista. Não existe comparação entre qual o modelo mais eficiente, em termos de gestão de polícia e gestão da segurança", avaliou Lima. "Esse é um modelo ideológico".

ā€œTarcĆ­sio sinalizou que prefere o modelo fluminense ao paulista. NĆ£o existe comparação entre qual o modelo mais eficiente, em termos de gestĆ£o de polĆ­cia e gestĆ£o da seguranƧaā€, avaliou Lima. ā€œEsse Ć© um modelo ideológicoā€.

Foto: TomzƩ Fonseca/Futura Press/Folhapress

Na prÔtica, isso quer dizer que Tarcísio não conseguirÔ mexer em muita coisa? Ele havia anunciado, durante a campanha, que extinguiria a Secretaria de Segurança Pública para nomear secretÔrios de polícia, aos moldes do Rio de Janeiro, mas depois voltou atrÔs.

A gente ainda não sabe se voltou atrÔs mesmo. Mas São Paulo tem uma diferença histórica: criou, por questões muito mais antigas, que têm a ver com a Revolução Constitucionalista de 1932, a ideia de identidade do paulista, e a polícia é um força pública muito ciosa da sua institucionalidade. E sempre foi diferente do restante de outras polícias militares do país, porque ela investiu muito na sua profissionalização. Então, sempre foi uma força policial muito ciosa do seu poder e da sua capacidade de determinar a agenda daquilo que faz.

ā€˜As cĆ¢meras fiscalizam os pedidos de uso privado da forƧa pĆŗblica, daĆ­ a resistĆŖncia interna’.

Quando o PSDB ganhou as eleiƧƵes e fica quase 30 anos no governo, o que existe Ć© uma substituição desse clamor ā€œbandido bom Ć© bandido mortoā€, dos anos de Paulo Maluf [governador de SĆ£o Paulo de 1979 a 1982; conservador, apostou no policiamento ostensivo] e Luiz AntĆ“nio Fleury Filho [governador de SĆ£o Paulo de 1991 a 1994, com gestĆ£o marcada pelo massacre do Carandiru], por ā€œdeixa a polĆ­cia fazer aquilo que Ć© tecnicamente muito qualificada para fazerā€, porque o governo de SĆ£o Paulo investiu e investe muito nas polĆ­cias, principalmente na PM. Ɖ um problema crĆ“nico no Brasil: a ideia de seguranƧa pĆŗblica como sinĆ“nimo de investimentos nas polĆ­cias militares. Investe-se pouco em melhoria da investigação, racionalização da legislação e de normas que regem as atividades policiais.

Em SĆ£o Paulo, alĆ©m do Infocrim, tivemos vĆ”rios investimentos a partir do episódio da Favela Naval, que o governo adotou como ponto de inflexĆ£o para uma profissionalização da polĆ­cia e ali quando ele criou o Sistema de GestĆ£o da PolĆ­cia Militar do Estado de SĆ£o Paulo. A PM de SĆ£o Paulo estuda vĆ”rios mecanismos de revisĆ£o de supervisĆ£o e controle porque, para ela, o mais importante Ć© a sua institucionalidade. Um coronel fica ali por cinco anos no cargo, depois vai obrigatoriamente para a reserva. EntĆ£o, o que o policial faz na ponta precisa ser controlado. NĆ£o só para medir o uso da forƧa, jĆ” que essa Ć© uma variĆ”vel polĆ­tica de decisĆ£o, mas tambĆ©m para que a própria corporação consiga saber o que o policial da ponta estĆ” fazendo ou quem estĆ” mandando fazĆŖ-lo. Porque existe uma voz de comando Ćŗnica na PolĆ­cia Militar de SĆ£o Paulo, que Ć© a própria PolĆ­cia Militar – e nĆ£o o coronel A ou B.

Isso não acontece no Rio de Janeiro, onde quem toma a decisão é o policial da ponta. Por lÔ, valoriza-se a independência do policial na determinação do que é certo ou não, quando hÔ excludente de ilicitude ou não. Ou seja, a corporação não tem a solidez organizacional que tem a Polícia Militar de São Paulo.

As polícias paulistas estão acostumadas com a Secretaria de Segurança, porque ela foi criada em 1978. Mas por um projeto ideológico, existe uma corrente das polícias militares que acha que precisa reproduzir o que acontece no Rio, que é fazer Secretaria de Estado de Polícia Militar, Secretaria de Estado de Polícia Civil. Esse desmembramento é muito ruim, porque segurança não é só Polícia Militar, não é só Polícia Civil, é soma delas e de outras políticas.

HĆ” outros modelos, como o de Santa Catarina. Eles adotaram um conselho de gestĆ£o, em que a cada seis meses cada um dos vinculados (PM, polĆ­cia civil, bombeiros, perĆ­cia, etc.) assume a presidĆŖncia do comitĆŖ, que Ć© deliberativo e vinculativo. Ou seja, as normas decididas ali precisam ser cumpridas por todos. HĆ” espaƧo de coordenação? Sim. EntĆ£o a secretaria nĆ£o Ć© o Ćŗnico modelo possĆ­vel, mas Ć© fundamental que vocĆŖ tenha um órgĆ£o. Porque no modelo de separação do Rio de Janeiro, ninguĆ©m sabe o que fazer. O Instituto de SeguranƧa PĆŗblica produz dados, mas ninguĆ©m pensa a polĆ­tica de seguranƧa. Em 2019, por exemplo, foi criada a PolĆ­cia Penal que, teoricamente, precisa estar articulada Ć s outras. Mas o que faz a PolĆ­cia Penal? Ela investiga? Ela nĆ£o investiga? Ɖ um processo que precisa ser pensado.

De qualquer forma, Tarcísio sinalizou que prefere o modelo fluminense ao paulista. Não existe comparação entre qual o modelo mais eficiente, em termos de gestão de polícia e gestão da segurança, seja pelos índices criminais ou pela profissionalização das instituições. Esse é um modelo ideológico. Então o que o bolsonarismo entende como eficiente?

Se o bolsonarismo quer matar, então o modelo fluminense é mais eficiente, jÔ que existe menos controle sobre a polícia. Se a legislação e a constituição forem a base, o Rio claramente não é mais eficiente.

Tarcísio também falou sobre retirar câmeras de seguranças das fardas dos policiais.

Esse Ć© um programa da PolĆ­cia Militar. Enquanto todo mundo fazia pressĆ£o para controle do uso da forƧa, a própria polĆ­cia jĆ” estudava protótipos, usos, formas de controle. E fez isso por sua conta e planejamento. Quando o coronel Marcelo Vieira Salles assumiu, em 2018, ele bancou que esses estudos continuassem. E, em 2020, ao tomar posse da pasta, o coronel Fernando Alencar Medeiros seguiu a mesma linha: ā€œVamos fazer, porque a polĆ­cia precisa ter uma nova forma de controle e legitimidadeā€.

Ɖ um projeto da corporação. NĆ£o serĆ” tĆ£o fĆ”cil para TarcĆ­sio desfazer isso. Alguns candidatos bolsonaristas mais radicais tentaram desqualificar o projeto das cĆ¢meras como algo de dois ou trĆŖs coronĆ©is, porque eles sabem que a corporação assumiu o projeto. E uma forma de desqualificĆ”-lo Ć© dizer que nĆ£o Ć© um projeto da corporação, que os PMs nĆ£o querem as cĆ¢meras. EntĆ£o esse Ć© um jogo interno que precisa ficar claro, mas a corporação atĆ© agora disse: ā€œNĆ£o, a gente querā€.

ā€˜A PM de SĆ£o Paulo tem um modelo que dĆ” mais autonomia Ć  corporação do que ao policial. Ɖ isso que estĆ” em jogo’.

E tem vĆ”rios fatores importantes e problemas internacionais, inclusive, com as empresas que oferecem essa tecnologia. EntĆ£o vocĆŖ tem, por um lado, o lobby empresarial e, do outro, a própria corporação dizendo que Ć© um investimento criado por ela mesma. Existe essa tensĆ£o bĆ”sica em relação a SĆ£o Paulo. TarcĆ­sio prometeu derrubar o uso das cĆ¢meras corporais porque o grupo mais bolsonarista Ć© totalmente contra, principalmente aqueles que sĆ£o praƧas. E sĆ£o contra porque tem uma variĆ”vel muito importante: as cĆ¢meras fiscalizam, fazem um microcontrole do cotidiano. NĆ£o Ć© só a questĆ£o da corrupção, tem tambĆ©m o favor polĆ­tico do comandante, de querer atender o dono da padaria. AĆ­ o cara paga um cafezinho. Ou de prestar serviƧo de seguranƧa privada usando equipamento pĆŗblico, ou atender ao pedido de determinado vereador em tal regiĆ£o. As cĆ¢meras fiscalizam os pedidos de uso privado da forƧa pĆŗblica, daĆ­ a resistĆŖncia interna. NĆ£o Ć© sobre ā€œdar liberdade aos policiaisā€. As pessoas nĆ£o querem controle porque isso desfaz acordos, nĆ£o só aqueles de corrupção direta, mas o microfavor, a forma de fazer a gestĆ£o privada da atividade policial. Por isso Ć© tĆ£o importante esse projeto e, no Rio de Janeiro, jamais vai acontecer.

Você mencionou os governos de Paulo Maluf e Luiz AntÓnio Fleury Filho. DÔ para dizer que São Paulo estÔ voltando para esse lugar? Podemos esperar de novo uma espetacularização das operações policiais, como ocorre no Rio?

O que vejo em relação Ć  SĆ£o Paulo Ć© uma tentativa de desconstrução do investimento de profissionalização da PolĆ­cia Militar feito nos Ćŗltimos 30 anos – do qual a própria corporação se orgulha. Se profissionalização Ć© a principal ferramenta de identidade de uma polĆ­cia, entĆ£o o objetivo Ć© refazer esse modelo, adotando aquele que dĆ” mais autonomia ao policial. EntĆ£o, de novo, a polĆ­cia de SĆ£o Paulo construiu um modelo que dĆ” mais autonomia Ć  corporação e nĆ£o ao policial. Ɖ isso que estĆ” em jogo.

Nos 30 anos de PSDB em SĆ£o Paulo, a sociedade civil e a imprensa pressionaram a discussĆ£o sobre os Ć­ndices de letalidade policial. AĆ­ veio caso do Castelinho e, anos depois, em 2011, mais 11 mortes numa ação da Rota e o entĆ£o governador Geraldo Alckmin disse: ā€œQuem nĆ£o reagiu estĆ” vivoā€. Acaba colocando de uma forma dĆŗbia, porque ele sabe que para boa parcela da população ā€œbandido bom Ć© bandido mortoā€, entĆ£o de certa forma isso retroalimenta a legitimidade das polĆ­cias. E os governos dependem das polĆ­cias para se viabilizarem. Porque nĆ£o precisa dar um golpe escancarado. Os policiais podem, por exemplo, fazer uma operação tartaruga [reduzir a eficiĆŖncia do trabalho para prejudicar as estatĆ­sticas]. E aĆ­ as coisas crescem e o governo se inviabiliza politicamente. Todos sabem que a relação com a polĆ­cia, principalmente a militar, Ć© uma relação muito difĆ­cil. VocĆŖ tem de equilibrar na ponta do lĆ”pis isso tudo, jĆ” que as polĆ­cias gozam hoje de um poder de influĆŖncia muito grande.

O governador eleito do Rio, ClƔudio Castro.

O governador eleito do Rio, ClƔudio Castro.

Foto: Eduardo Anizelli/Folhapress

O Tarcísio vai conseguir fazer tudo que ele quer? Não. Quem vai decidir, no fundo, é a própria corporação. O ClÔudio Castro [governador reeleito no Rio] vai conseguir fazer o que ele quer? Não necessariamente. Na verdade, ele estÔ surfando mais ou menos na mesma opinião da corporação. Então tende a ser mais efetivo no alinhamento de suas pautas, ao contrÔrio do que eventualmente acontecerÔ com Tarcísio em São Paulo.

Você tem um outro problema histórico: as deficiências de estrutura das polícias civis. São 14 carreiras, sem capacidade de execução orçamentÔria. No Rio é ainda pior, a Polícia Civil é mais militarizada do que muitas polícias militares, em relação à letalidade de suas ações [por matar mais que outras polícias civis em vez de investigar]. O problema é que o ISP não divulga os dados separados de mortes geradas por policiais militares e civis, é tudo unificado.

Como o senhor avalia a indicação do Capitão Derrite para a pasta de Segurança Pública em São Paulo?

Ele Ć© um representante do bolsonarismo de ā€œbandido bom Ć© bandido mortoā€. Isso Ć© inegĆ”vel, ele se construiu politicamente sendo dono de um canal no Facebook com mais de 1 milhĆ£o de seguidores, espetacularizando a atividade policial. Mas ele Ć© um capitĆ£o de 38 anos, o que, para uma polĆ­cia como a paulista, significa que um capitĆ£o que mal saiu da atividade vai mandar em majores, tenentes, coronĆ©is. Isso de certa forma quebra a espinha dorsal do militarismo. Se o objetivo Ć© acabar com a institucionalidade construĆ­da, essa Ć© uma forma de fazer todos esses oficiais superiores se aposentarem. E aĆ­ o Derrite coloca pessoas mais novas, que concordam com ele e, sendo o mais velho, impƵe a própria versĆ£o.

HĆ” um risco de aumentar o poder das milĆ­cias em SĆ£o Paulo?

Quando você investe no descontrole e no fortalecimento da liderança individual em detrimento da liderança da corporação, um dos riscos é a milicialização. Corrupção jÔ existe, mas o modelo de milícia do Rio não existe exatamente igual em nenhum lugar do Brasil: com controle territorial e da força, comércio da economia subterrânea e atividades ilegais. Esses elementos, de certa forma, jÔ são explorados pelo crime organizado de São Paulo, que tem um peso e vai desafiar qualquer tentativa desse tipo.

De todo modo, o risco jĆ” existe e Ć© contido justamente com o fortalecimento da corporação. Quando vocĆŖ amplia a autonomia, o risco pode aumentar. Mas dizer que esse serĆ” o resultado automĆ”tico só fortalece o bolsonarismo. Porque vai para o discurso ā€œtodo mundo Ć© contra a polĆ­ciaā€. Essa discussĆ£o precisa de muito cuidado, porque o risco estĆ” presente no Brasil inteiro. Policiais militares como funcionĆ”rios do trĆ”fico, pistoleiros, seguranƧas, isso existe em qualquer lugar – Ć© o que a própria corporação busca inibir quando cria os programas de cĆ¢meras corporais. Se afirmarmos que serĆ” uma consequĆŖncia automĆ”tica, vocĆŖ enfraquece o bom policial. Ɖ preciso tratar a questĆ£o da milicialização em SĆ£o Paulo como um risco, e nĆ£o um fato consumado.

Como o governo federal pode intervir nas políticas de segurança pública adotadas em estados comandados por bolsonaristas?

HÔ três cenÔrios possíveis. No primeiro deles, inegavelmente, os governadores terão de conversar com o governo federal. Quem estiver à frente do Ministério da Justiça e da Segurança Pública, ou dos ministérios, caso sejam desmembrados, terÔ de liberar uma pauta de fiscalização, controle, sem revanchismo, mas de forma muito enfÔtica (ou seja, não deixar que as polícias determinem a pauta) e ao mesmo tempo conversar sobre as necessidades de uma política de segurança pública. Aí você consegue conter esses avanços bolsonaristas na Ôrea.

ā€˜A seguranƧa jamais serĆ” o caos que foi com Bolsonaro, mas o governo Lula tem que ser pressionado’.

No segundo cenĆ”rio, ficamos na mesma dos Ćŗltimos 30 anos: o ministro ou os seus assistentes fazem a lógica do ā€œvamos fazer mais dinheiro. Vamos passar mais dinheiro, negociar com o governadorā€. AĆ­ a tendĆŖncia Ć© esgarƧar um pouco. E quando acabarem os quatro anos do TarcĆ­sio, provavelmente teremos uma polĆ­cia mais capenga, com o profissionalismo comprometido em nome de um projeto polĆ­tico. Mas ainda nĆ£o vai ter ganhado totalmente, porque a corporação paulista Ć© muito forte.

O terceiro cenÔrio é o ideal: com gestores que entendem o problema e ajudem a construir a valorização das polícias, com a construção de uma nova normativa infraconstitucional para prestação de contas, com métricas baseadas em evidências, com informações de novas doutrinas internacionais sobre investigação. Esse é o cenÔrio perfeito, mas duvido de sua implementação, pelo debate que estÔ sendo feito na transição.

Por quĆŖ?

O debate, pelo que se vĆŖ nas declaraƧƵes pĆŗblicas, Ć© ā€œnĆ£o vamos focar em nada que tem a ver com a agenda dos governadoresā€. E ignoram que para fortalecer o governador vocĆŖ precisa atualizar as normas. Ɖ uma pauta que gera desgaste, mas isso precisa ser feito. Precisamos de profissionais que pensem em seguranƧa pĆŗblica para alĆ©m do direito penal. SeguranƧa captura agenda da direita e da esquerda. Inegavelmente, a discussĆ£o envolve crimes, penas, justiƧa criminal. Mas Ć© muito mais que isso. Ɖ a garantia de que os direitos de ir e vir sejam respeitados. Ɖ disso que se trata quando decido subir o morro na Vila Cruzeiro para matar 20 e poucas pessoas, apreender uma dĆŗzia de fuzis e parar o dia de 70 mil pessoas – uma operação militar que nĆ£o se justifica! Ɖ preciso fazer de outra forma.

Como esse diƔlogo com o novo governo se faz necessƔrio, dƔ para imaginar um cenƔrio melhor tambƩm para o Rio de Janeiro?

Se vocĆŖ perceber, nĆ£o tem ninguĆ©m do Rio de Janeiro na equipe de transição. O [Marcelo] Freixo nĆ£o conseguiu entrar na equipe da Ć”rea de seguranƧa. EntĆ£o, a realpolitik muitas vezes pode fazer com que a negociação com o ClĆ”udio Castro se dĆŖ por outras questƵes maiores. E a seguranƧa nĆ£o precisa ser o caos que seria com Bolsonaro, jamais serĆ” igual, mas o governo Lula precisa ser pressionado. A sociedade civil e a imprensa precisam mostrar claramente que alguns fundamentos precisam ser reconstruĆ­dos – e talvez nĆ£o da forma como atĆ© hoje foram –, garantir que os governos sejam responsabilizados e que claramente as polĆ­cias sejam controladas. O grande desafio Ć© controlar a polĆ­cia. E a esquerda muitas vezes nĆ£o sabe fazer isso.

O governo precisa dizer como controlar a polĆ­cia, respeitando as corporaƧƵes. Elas nĆ£o sĆ£o inimigas, isso Ć© fundamental. Ɖ preciso valorizar a corporação, com condiƧƵes mĆ­nimas de trabalho aos mais de 700 mil servidores. Mas a valorização nĆ£o pode ser confundida com autonomia total para a polĆ­cia fazer o que acha certo, e sim dentro das garantias do estado de direito Ć  cidadania no Brasil. Parece difĆ­cil, mas Ć© essa a disputa na agenda do governo Lula. Ɖ uma agenda muito aparentemente residual, mas central para o modelo de desenvolvimento brasileiro.

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