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Atos terroristas mostram que Ministério da Justiça e Segurança Pública terÔ enorme desafio no governo Lula

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Ilustração: Júlia Coelho/The Intercept Brasil

Cinco Ónibus e três carros queimados, uma delegacia da Polícia Federal depredada e botijões de gÔs espalhados pelas ruas fechadas em meio ao caos em Brasília. Diante disso, uma Polícia Militar que se omitiu, enquanto o ministro da Justiça, Anderson Torres, jantava em um restaurante da cidade. O político só se pronunciou, via Twitter, mais de duas horas depois do início do pandemÓnio. No dia seguinte, a Esplanada dos Ministérios amanheceu fechada e havia bloqueios na Praça dos Três Poderes e nas proximidades da sede da PF. O hotel onde o presidente eleito Lula estava hospedado após sua diplomação foi cercado por policiais por segurança.

O novo governo ainda nĆ£o foi empossado, mas FlĆ”vio Dino, anunciado como futuro ministro da JustiƧa e SeguranƧa PĆŗblica, se pronunciou antes do atual lĆ­der da pasta. Disse que as cenas eram inaceitĆ”veis e que ā€œas medidas de responsabilização jurĆ­dica prosseguirĆ£o, nos termos da leiā€. Citando artigos da Constituição sobre a competĆŖncia do governo federal sobre crimes polĆ­ticos, ele afirmou que, a partir de janeiro, tomarĆ” as providĆŖncias que agora nĆ£o sĆ£o possĆ­veis.

VĆ­deo. FlĆ”vio Dino sobre os vĆ¢ndalos bolsonaristas: “Todos estĆ£o sendo identificados e as medidas serĆ£o tomadas a partir de janeiro”. pic.twitter.com/Hjwry2V6oG

— Blog do Noblat (@BlogdoNoblat) December 13, 2022

O quebra-quebra foi causado por bolsonaristas radicais após JosĆ© AcĆ”cio Serere Xavante ser preso por convocar ā€œpessoas armadas para impedir a diplomação dos eleitosā€ e levantar suspeitas infundadas contra o processo eleitoral. Conhecido como Cacique Tserere, o Ć­ndigena recebe apoio financeiro do fazendeiro Didi Pimenta, dono de uma propriedade em CampinĆ”polis, no Mato Grosso, onde mora a famĆ­lia do cacique. Didi jĆ” apareceu em vĆ­deo pedindo um pix para ā€œmanter os Ć­ndiosā€ em BrasĆ­lia.

O jornalista Thalys Machado, que cobriu as manifestaƧƵes extremistas naquela noite, narrou ter visto uma polĆ­cia tĆ­mida, negociando com os radicais amistosamente. Ao ser questionado se alguĆ©m havia sido preso após os atos terroristas, o governador reeleito do Distrito Federal Ibaneis Rocha respondeu: ā€œAcho que nĆ£oā€œ.

A reação veio depois. Bolsonaro segue um cadÔver presidencial, incentivando radicais a dobrarem a aposta em seus raros pronunciamentos. Acostumado a tratar as coisas públicas como privadas, o presidente abriu as portas do PalÔcio da Alvorada para seus apoiadores e os abrigou. Dentre eles, estava Oswaldo EustÔquio, investigado no inquérito das fake news. Na manhã da última quinta-feira, a PF cumpriu 103 mandados de busca e apreensão contra envolvidos em manifestações golpistas em oito estados, inclusive contra dois deputados federais bolsonaristas.

Bolsonaro não foi eleito, mas muitos de seus aliados sim. O corpo mole de Ibaneis Rocha e da PM não serão casos isolados nos próximos anos. Lula enfrentarÔ oposição em 14 estados e militares que não se atêm à sua função constitucional em um país onde um terço dos policiais militares flertam com o bolsonarismo radical.

Lula enfrentarÔ a oposição, militares que não se atêm à sua função e PMs que flertam com o bolsonarismo radical.

O Brasil tem mais de meio milhão de policiais militares, civis e bombeiros, e eles têm uma identificação pessoal e ideológica com Bolsonaro. Mas não só. Os PMs são especialmente gratos ao presidente (supostamente) em exercício por terem sido poupados na reforma da previdência. Ao contrÔrio do cidadão comum, eles receberão salÔrio integral ao se aposentar, não terão idade mínima obrigatória para isso e vão pagar menos contribuição.

Desafios

Lula quebrou sua primeira promessa de campanha, a de recriar o Ministério da Segurança Pública, hoje agregado ao Ministério da Justiça, e esse rojão agora estÔ na mão de FlÔvio Dino. Vou escrever melhor sobre essa dobradinha depois. Mas em linhas gerais, o novo ministro terÔ que lidar com o problema em duas frentes: as polícias radicalizadas que podem se omitir e gerar ainda mais caos na segurança pública, somadas à defesa da ordem jurídica, dos direitos políticos e das garantias constitucionais.

As frentes não chegam a ser diretamente conflitantes, mas a segurança tem demandas específicas e um desafio enorme diante de si com a expansão das milícias e das facções, as altas taxas de homicídio, o descontrole da política de armas e a inoperância do Sistema Único de Segurança Pública, o SUSP. Sem uma gestão coordenada entre União e estados, o que estÔ ruim pode piorar muito e colocar em xeque a gestão petista, jÔ muito criticada sobre suas políticas de segurança.

A falta de dados e gestĆ£o de informaƧƵes sĆ£o problemas crĆ“nicos no campo da seguranƧa hĆ” muito tempo. HĆ” polĆ­cias que fazem anotaƧƵes em caderninhos, faltas um Ć­ndice nacional de homicĆ­dios e um banco Ćŗnico de informaƧƵes sobre armas e muniƧƵes. Como gerir a seguranƧa pĆŗblica de um paĆ­s que mata muito, tem muitas armas e disputas sangrentas entre grupos armados, sem o mĆ­nimo? Ɖ a receita do erro.

Temos pouco, mas a coisa pode estar ficando ainda pior. O grupo de trabalho de JustiƧa e SeguranƧa PĆŗblica do governo de transição jĆ” levantou a informação de que falta orƧamento. SeguranƧa Ć© caro. Dino afirmou que a falta de recursos pode afetar a posse presidencial, o pagamento de diĆ”rias de policiais e jĆ” falta combustĆ­vel. ā€œA posse, em si, envolve a mobilização de chefes de estado de outros paĆ­ses que se dirigem naturalmente para prestigiar a posse, e isso exige uma sobredemanda na PolĆ­cia Federal. O quadro Ć© que nĆ£o tem diĆ”ria hoje. Nem na PolĆ­cia Federal, nem na PolĆ­cia RodoviĆ”ria Federalā€, disse.

Os primeiros 100 dias de governo serão um teste de fogo para o ministro, que jÔ estÔ trabalhando no vÔcuo da ingerência bolsonarista.

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