Da PatagĆ“nia ao MĆ©xico, a AmĆ©rica Latina vive uma fase sem precedentes. Em poucos dias, os governos dos cinco maiores paĆses da regiĆ£o ā Brasil, MĆ©xico, Argentina, ColĆ“mbia e Chile ā estarĆ£o sob o comando de presidentes de esquerda, feito que lembra a chamada āonda rosaā do inĆcio do sĆ©culo. A eleição de Luiz InĆ”cio Lula da Silva trouxe alĆvio para as vozes progressistas do continente. Mas os ecos da vizinhanƧa mostram que, apesar das vitórias nas urnas, a esquerda nĆ£o vive seus melhores dias.
No Peru, após ensaiar o fechamento do Parlamento, o presidente Pedro Castillo foi enfim derrubado pelo próprio Congresso, que jĆ” tentava destituĆ-lo havia meses. Ć o quinto mandatĆ”rio do paĆs que deixa o cargo desde 2018. E pela primeira vez uma mulher, a vice Dina Boluarte, assume o posto mais alto da nação, emboraĀ venha sendo pressionada a adiantar as eleiƧƵes para o fim de 2023.
A Argentina luta contra uma eterna crise econĆ“mica e uma das maiores inflaƧƵes da regiĆ£o, atrĆ”s apenas da Venezuela. AlĆ©m disso, o presidente Alberto FernĆ”ndez e a vice Cristina Kirchner vivem em cabo de guerra. Kirchner, inclusive, foi condenada recentemente em primeira instĆ¢ncia a seis anos de prisĆ£o por casos de superfaturamento de obras ā e pode ficar inelegĆvel se a decisĆ£o for confirmada nas cortes superiores. A ex-presidente tambĆ©m foi alvo de uma tentativa de homicĆdio Ć mĆ£o armada em setembro.
No Chile, o presidente Gabriel Boric passou de astro da nova esquerda latina a um mandatÔrio inexperiente, que não consegue resolver o conflito armado em território mapuche, ou aprovar as reformas prometidas no Congresso. Depois da rejeição no plebiscito da nova Constituição chilena, também uma reprovação do governo, Boric se viu obrigado a reformular seu gabinete ministerial para tentar acalmar os ânimos da população.
Ć nesse contexto de contradiƧƵes latino-americanas, marcadas por constantes vitórias e crises, que o Intercept conversou com o historiador Fabio Luis Barbosa dos Santos, professor de RelaƧƵes Internacionais da Universidade Federal de SĆ£o Paulo. Santos Ć© autor dos livros āUma história da onda progressista sul-americanaā e āO mĆ©dico e o monstro: uma leitura do progressismo latino-americano e seus opostosā. Confira a entrevista completa em parceria com o Giro Latino.
āDepois de experimentar o bolsonarismo, a gente consegue entender o que a ColĆ“mbia vive desde o inĆcio do sĆ©culo 21ā³, afirmou o historiador Fabio Luis Barbosa dos Santos.
Foto: Divulgação.
Intercept ā Com as recentes vitórias da esquerda na regiĆ£o, tem se falado numa nova āonda rosaā latino-americana. Ć realmente um fenĆ“meno progressista ou apenas uma resposta de oposição?
Fabio Luis Barbosa dos Santos ā Depende de cada caso. Os que mais chamam a atenção sĆ£o os do MĆ©xico, Peru, ColĆ“mbia e Chile, justamente por serem paĆses que nĆ£o elegeram governos progressistas no comeƧo do sĆ©culo 21. Tem um denominador comum com a onda rosa original: pode ser interpretada como uma vitória da esquerda, mas tambĆ©m foi uma alternativa para gerir as contradiƧƵes sociais diante do esgotamento das forƧas polĆticas que governavam esses paĆses. A onda progressista pode ser entendida como uma alternativa de gestĆ£o ao neoliberalismo.
Isso Ć© mais evidente em paĆses como Argentina, BolĆvia ou Equador, onde a vitória veio após os levantes populares que derrubaram os governos da Ć©poca. Mais recentemente, foram os casos chileno, colombiano e peruano: nos trĆŖs paĆses, houve rebeliƵes populares em plena pandemia. Esse Ć© um dado que merece reflexĆ£o. As tensƵes sociais se aguƧaram em todos os paĆses. Mas, nos paĆses onde o progressismo Ć© mais forte, prevalece a espera pela próxima eleição.
Mas, no Peru, a vitória da esquerda jÔ começou com problemas, não?
No caso peruano, nĆ£o me parece adequado identificar o Pedro Castillo com o progressismo. O rosto progressista Ć© a Verónika Mendoza, que jĆ” tinha disputado a eleição anterior [de 2016] e por muito pouco nĆ£o chegou ao segundo turno. Do ponto de vista da forma polĆtica ā nĆ£o do conteĆŗdo ā, Pedro Castillo se assemelha mais ao Jair Bolsonaro: alguĆ©m que se apresenta como um outsider, que representa um Peru profundo. Ele colocava uma agenda de uma esquerda estatista enquanto cultivava valores morais conservadores.
Em relação ao contexto socioeconÓmico, o que hÔ de diferente nos novos governos da região, principalmente aqueles onde a esquerda chegou ao poder pela primeira vez?
Do ponto de vista da história polĆtica, as eleiƧƵes de AndrĆ©s Manuel López Obrador no MĆ©xico e de Gustavo Petro na ColĆ“mbia tĆŖm um significado extraordinĆ”rio. Eram paĆses governados sempre pela direita ā que levou ao extremo a violĆŖncia da autocracia burguesa da AmĆ©rica Latina. A ColĆ“mbia vem de um conflito interno de mais de 50 anos. A polĆtica colombiana se dividiu em dois partidos: um da paz e outro da guerra, e a diferenƧa fundamental nĆ£o estĆ” no neoliberalismo ou na agenda econĆ“mica, mas sim nas formas de lidar com o conflito armado.
āCastillo colocava uma agenda da esquerda estatista no Peru enquanto cultivava valores conservadoresā.
HĆ” setores da sociedade colombiana que fazem da guerra um meio de vida, um negócio, e impedem a paz sistematicamente. O paĆs foi pioneiro em uma polĆtica do ódio com Ćlvaro Uribe [presidente de 2002 a 2010]. Mas o primeiro sucessor de Uribe, o Juan Manuel Santos [que governou de 2010 a 2018], rompeu com ele nĆ£o pelas diferenƧas no plano econĆ“mico, mas porque Santos foi buscar a paz com as guerrilhas. HĆ” tambĆ©m um setor da classe dominante que entende que a paz Ć© mais favorĆ”vel para os negócios do que a guerra.
Isso Ʃ um pressƔgio do que pode acontecer no Brasil?
O futuro de um Brasil miliciano apontaria para isso. Quando o governo Santos promove um plebiscito pela paz e o ānĆ£oā vence, o principal argumento Ć© que o paĆs seria governado pelo castro-chavismo. Depois de experimentar o bolsonarismo, a gente consegue entender o que a ColĆ“mbia vive desde o inĆcio do sĆ©culo 21. A ColĆ“mbia vive uma polĆtica do ódio, que Ć© tambĆ©m uma polĆtica da mentira.
O que significam os conceitos de aceleração e contenção que você usa em suas pesquisas?
No meu Ćŗltimo livro, āO mĆ©dico e o monstroā, recorro aos oxĆmoros [contradiƧƵes entre si] para ilustrar a dinĆ¢mica do progressismo. Por exemplo: uma polĆtica como a do Uribe ou do Bolsonaro olha para as fraturas sociais desses paĆses e assume uma postura de aceleração da crise. Eles aceleram as dinĆ¢micas neoliberais que corroem o tecido social e resultam numa sociabilidade autofĆ”gica, o princĆpio de todos contra todos.
A ideia da contenção significa que o propósito nĆ£o Ć© modificar as estruturas da sociedade, mas buscar melhorar a vida para os de baixo, sem mexer nessas estruturas. As polĆticas focalizadas, por mais importantes que sejam, nĆ£o desafiam a racionalidade neoliberal, mas procuram conter os seus efeitos. Por isso Ć© uma dinĆ¢mica contraditória.
Essas são as restrições de atuação da esquerda. Mas quais são os limites para a direita no governo?
Um dos limites sĆ£o os Estados Unidos. O outro Ć© a própria dinĆ¢mica dos negócios. Para ilustrar o caso dos EUA, vou para Honduras. O paĆs foi comandado pelo Partido Nacional, cuja principal figura era um homem do narcotrĆ”fico, o presidente Juan Orlando HernĆ”ndez. Sob o governo dele, Honduras se constituiu como uma narcoditadura, uma mĆ”quina de produzir migrantes e drogas. Ć por isso que a candidatura da Xiomara Castro [de esquerda] teve simpatia dos Estados Unidos e de parte importante das elites hondurenhas. E o que aconteceu? O Juan Orlando HernĆ”ndez foi preso e extraditado para os EUA pouco depois de deixar o cargo. Enquanto isso, Honduras pede ajuda da ONU para constituir comissƵes de investigação e cooperação internacional.
De certa forma, o bolsonarismo foi uma polĆtica da aceleração [da crise], e Lula representa uma polĆtica de contenção. Mas nĆ£o se trata de um movimento pendular, ida e volta. O sentido da evolução da história permanece o mesmo. Segue em marcha a sociabilidade autofĆ”gica, o todos contra todos, o empreendedorismo de vocĆŖ mesmo, o caldo de cultura dessas polĆticas do ódio. Todos os problemas que a gente tinha hĆ” 20 anos estĆ£o agravados, e nĆ£o Ć© só por causa do perĆodo bolsonarista. Se a gente olhar para o meio ambiente, a economia, a violĆŖncia urbana, a atividade miliciana, o encarceramento, nĆ£o hĆ” dimensĆ£o em que o Brasil esteja melhor. A polĆtica lulista tem como forte a conciliação, mas o outro lado nĆ£o estĆ” no jogo da conciliação, estĆ” no jogo da guerra.
Você fala de contradições. Em matéria de meio ambiente e transição energética, a gente vê muitos sinais trocados. Por que os governos progressistas têm tanta dificuldade nesses temas?
HĆ” uma esquerda da velha guarda que precisa encarnar os processos sociais contemporĆ¢neos. A questĆ£o ambiental estĆ” nessa perspectiva. Ć uma temĆ”tica considerada irrelevante ā quando nĆ£o [Ć© vista como] um empecilho do ponto de vista mais ortodoxo ā, mas essa Ć© uma visĆ£o que precisa ser superada. O compromisso com essas formas econĆ“micas extrativistas Ć© o calcanhar de aquiles dos governos progressistas.
Talvez o caso mais interessante seja o equatoriano: na eleição do ano passado, o progressismo equatoriano fissurou por dentro. O ex-presidente Rafael Correa rompeu com quem foi seu vice, LenĆn Moreno, que abraƧou a direita e os EUA. Viraram inimigos. Essa implosĆ£o do progressismo abriu espaƧo para um terceiro nome: Yaku PĆ©rez, representante dos movimentos indĆgenas pelo partido Pachakutik. Era um candidato com uma posição alternativa ao extrativismo, em defesa da Ć”gua e dos direitos reprodutivos das mulheres. Mas o que fez o correĆsmo? Retrataram o Yaku PĆ©rez como um cavalo de troia do imperialismo, com uma narrativa falsa que teve muita circulação internacional.
āO progressismo nĆ£o Ć© só indiferente Ć polĆtica ambiental, como pode ser hostilā.
O progressismo, na forma como se constituiu em anos recentes, nĆ£o só Ć© indiferente a essa polĆtica [ambiental], mas tambĆ©m pode ser hostil. Muitos questionam por que o Yaku PĆ©rez nĆ£o apoiou o candidato do correĆsmo no segundo turno, mas ele foi preso diversas vezes nos governos de Correa, apanhou de chicote. Ć um ponto cego da polĆtica progressista.
Como podemos esperar a reação da extrema direita? As forças autoritÔrias estão se consolidando na região?
A história do mĆ©dico e do monstro que uso no meu livro Ć© uma metĆ”fora do final do sĆ©culo 19. Um mĆ©dico comeƧa a fazer experiĆŖncias em si mesmo com o objetivo de isolar seu ālado mauā. Nesse processo, cria um alterego, o Mr. Hyde, uma criatura que tem a peculiaridade de ser a maldade concentrada. Para voltar Ć forma do mĆ©dico, ele bebe um preparado quĆmico. Mas qual Ć© o drama? Cada vez mais, ele precisa de doses maiores do preparado, que deixa de fazer efeito: o monstro se emancipa. Qual serĆ” a eficĆ”cia do remĆ©dio das polĆticas de contenção lulista no contexto que a gente vive? O monstro nĆ£o Ć© uma pessoa, mas um fenĆ“meno social de uma parte da população que deseja polĆticas violentas.
Ć o que ocorre em El Salvador atualmente. O presidente Nayib Bukele decretou estado de sĆtio a pretexto de combater as maras [gangues], aprisionou de forma arbitrĆ”ria quase 60 mil pessoas num paĆs minĆŗsculo e segue com uma aprovação na casa dos 90%. O drama do nosso tempo Ć© que essas polĆticas que caracterizam regimes autoritĆ”rios passaram a ser socialmente desejadas, e Ć© isso que se forma no Brasil: Lula ganhou por uma fração muito pequena. Os antagonismos estĆ£o muito mais aflorados na sociedade do que hĆ” 20 anos, e o cobertor social Ć© muito mais curto.
Chilenos vĆ£o Ć s ruas comemoras os trĆŖs anos da rebeliĆ£o de 2019 no paĆs.
Foto: Jose Veas/Getty Images
No Chile, o anseio por mudança do estallido social jÔ teve um revés com a rejeição da nova Constituição. O que explica isso?
A gente tem que pensar como a extraordinÔria revolução chilena quase foi vencida pelo lado oposto do que era pedido pelas ruas. Aà hÔ vÔrios elementos complexos, inclusive as contradições das pessoas que se manifestam. No Chile, o neoliberalismo é mais forte, mais internalizado. As pessoas que estavam contra os fundos de pensão não necessariamente queriam uma previdência pública solidÔria, mas apenas que o imposto compulsório deixasse de ser cobrado. As pessoas são contraditórias. Dizer que alguém votou no Bolsonaro porque é fascista ou chamar de revolucionÔrio um manifestante chileno não captura toda essa complexidade.
āO trilho do Chile jĆ” foi percorrido por Venezuela, BolĆvia, Equador. Ć sinal de falta de imaginação polĆticaā.
Havia a ideia de que tudo mudaria com uma nova Constituição e um novo presidente. NĆ£o diminuo a importĆ¢ncia do processo chileno, mas precisamos pensar alĆ©m. Esse trilho jĆ” foi percorrido na história recente pela Venezuela, pela BolĆvia, pelo Equador. Ć sintoma de uma falta de imaginação polĆtica do nosso tempo. Se questiono o alcance do progressismo, entendo que ele tem a sua importĆ¢ncia social, mas Ć© incapaz de modificar essa forma social. E Ć© ela que produz fenĆ“menos sociais como o bolsonarismo, o JosĆ© Antonio Kast [candidato da extrema direita chilena]. A gente precisa criar outras formas sociais. Outra Constituição e outro presidente nĆ£o resolvem. A dinĆ¢mica que produz os Bolsonaros tambĆ©m gera as rebeliƵes. Como a gente dĆ” futuro Ć potĆŖncia disruptiva de uma rebeliĆ£o como a chilena? Esse Ć© um dilema do nosso tempo.
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