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Tirar Janio do jogo Ć© demitir o jornalismo

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Foto: Ricardo Borges/Folhapress

O leitor de jornal, não o cÓnjuge traído da anedota, é o último a saber. Assim me vi na banca domingueira diante da cratera deixada pela coluna de Janio de Freitas na Folha de S. Paulo. Traído com sanguinolência rodriguiana. Corneado com todas exclamações dos berros das manchetes mais antigas.

Pode ter sido falha tĆ©cnica da grĆ”fica, pensei, enquanto consultava o mundo online – sim, sou digital, apenas o domingo Ć© que nĆ£o consigo passar sem impressos, o domingo Ć© um dia de papel, radicalmente gutenberguiano. VocĆŖ nĆ£o foi traĆ­do, pobre leitor, sĆ£o chifres ideológicos e polarizados que botaram na sua cabeƧa esquerdopata. Jamais cometeriam o desatino de tirar o Janio.

O Janio, jamais. Nessa crise braba da imprensa, o que mais um veículo carece é de um Janio. Não se fazem mais Janios. Quem tem um Janio, óbvio, o exaltarÔ no alto da primeira pÔgina: só a Folha tem Janio. Um Janio a serviço do Brasil.

NĆ£o tem essa de ā€œrestriƧƵes orƧamentĆ”riasā€, como na desculpa oficial da Faria Lima (Erramos: BarĆ£o de Limeira, 425), que justifique. Passaralho algum pode levar um colunista-repórter desta envergadura. [Leia mais sobre a origem semĆ¢ntica do passaralho na minha coluna anterior, neste mesmo TIB].

ā€œJanio Ć© indemissĆ­vel, mas vivemos tempos sombrios, que desconhecem o reconhecimento e o respeitoā€, disse a atriz e escritora Fernanda Torres, na sua coluna natalina sobre planilhas e humanidade. ā€œNum processo longo e implacĆ”vel, a Folha foi se alienando do que era e do que significava para seus leitores. Envelheceu. Janio, nĆ£o. Tive orgulho de estar ao lado dele durante tantos anosā€, escreveu Marcelo Coelho, ao final de um artigo sobre CidadĆ£o Kane.

Ambos colunistas da Folha, Fernanda fica, Coelho corre – pediu desligamento do jornal por causa da demissĆ£o de Janio.

Minha dor Ć© a dor ordinĆ”ria de leitor. De quem pegava o bacurau da VĆ”rzea, nos anos 1980, para comprar o jornal na avenida Guararapes, Recife. Neste sentido subĆŗrbio/centro, empilhei a Folha da campanha das ā€œDiretas-JĆ”ā€ (84) e tive a maior aula do tal jornalismo investigativo no escĆ¢ndalo da ferrovia Norte-Sul (87). Só neste episódio, Janio nos poupou de um prejĆŗ na faixa dos R$ 2,4 bilhƵes. Uma gastanƧa.

Dali por diante, todo repórter ganhou uma obsessão novíssima: antecipar os resultados de uma concorrência pública com um anúncio cifrados nos classificados de imóveis. Estava criada uma fórmula de denúncia que faria sucesso. Os coleguinhas usam até hoje.

Outro grande momento Janio se deu em 1983. Inesquecível. Publicou sobre uma doença cardíaca do presidente João Batista Figueiredo, o último da Ditadura Militar, que o obrigaria a pedir uma licença do cargo. Foi contestado pela equipe do general e pelos próprios colegas de imprensa.

Uma semana depois, o presidente seria submetido a cirurgia nos EUA. Janio escreveu um texto no qual reproduzia todos os desmentidos oficiais e manchetes bajuladoras da mĆ­dia. Com a pena do escracho, finalizou: ā€œAo general Figueiredo, pronta recuperação. Aos outros citados, tambĆ©mā€.

Ainda no começo da trajetória nas redações, Janio arejou nosso jeito de ler os jornais. Com uma equipe do Jornal do Brasil, tirou os fios que dividiam as colunas de textos, nos anos 1950. O novo modelo vanguardista de diagramação foi copiado no Brasil e lÔ fora. Era o colunista jÔ limpando a vista do leitor para os seus futuros furos históricos.

Em um paĆ­s chamado Eldorado, Janio tambĆ©m Ć© relevante. Ɖ lĆ” que se passa a trama polĆ­tica do filme ā€œTerra em Transeā€ (1967), um panorama do autoritarismo e dos conchavos tropicais. Para construir o personagem Paulo Martins, jornalista e poeta, o diretor Glauber Rocha usou como fonte as conversas que mantinha com o seu amigo Janio de Freitas.

ā€œPara muitos leitores e profissionais da Ć”rea, Janio foi cortado por razƵes ideológicas. ImpressĆ£o galvanizada pelo corte simultĆ¢neo das colunas de Gregorio Duvivier e Marilene Felintoā€, escreveu o ombudsman JosĆ© Henrique Mariante, em bom e justĆ­ssimo texto sobre a dispensa do colunista-repórter.

NĆ£o importam os motivos da demissĆ£o. Foi uma decisĆ£o contra o leitor, contra o jornalismo – impresso, digital ou via tambores selvagens. Ao moƧo da ā€œcontenção de despesasā€, pronta recuperação no mercado. Aos demais envolvidos, tambĆ©m.

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