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Profissionais colocam estado a serviço da grilagem de terras públicas na AmazÓnia

Ɖ 15 de agosto, feriado no ParĆ”, e acaba de amanhecer em Novo Progresso. Nem por isso a cidade de 25 mil habitantes, situada Ć  beira da BR-163, estĆ” parada. Enquanto os primeiros clientes entram e saem das lojas de ouro, na zona de prostituição meia dĆŗzia de homens tenta se recuperar da noite agitada para comeƧar mais um dia de trabalho nas queimadas, no garimpo ou nas derrubadas. Em seus escritórios, corretores e engenheiros graduados usam o estado a serviƧo da apropriação de terras pĆŗblicas.

Estamos no ā€œcentro do garimpo do agronegócioā€, uma Ć”rea que ā€œvem sendo disputada a cada palmo pelos investidoresā€, como anuncia um dos vĆ”rios perfis de venda de propriedades rurais no Facebook. O cardĆ”pio Ć  disposição do freguĆŖs Ć© variado. Inclui Ć”reas com ou sem floresta, dentro ou fora de unidades de conservação, com ou sem multa ambiental, com ou sem ouro. Para usufruir dessas opƧƵes, basta que o cliente esteja disposto a abrir mĆ£o do tĆ­tulo de terra.

ā€œĆ‰ muito raro achar fazenda com documento na regiĆ£oā€, esclareceu Roberto, um dos diversos corretores que lucram com a valorização dos imóveis no sudoeste do ParĆ”, após a conclusĆ£o do asfaltamento da BR-163, no final de 2019.

Com tanta procura, quem dormir no ponto corre o risco de perder o negócio. ā€œRestam poucas opƧƵes, hein? Principalmente se tu procura Ć”rea para lavoura [sobretudo de soja]. Aqui tĆ” de um jeito que quando passam trĆŖs, quatro dias, o proprietĆ”rio jĆ” estĆ” vendendoā€, alertou o corretor.

O resultado desse boom imobiliÔrio é uma nova onda de grilagem e desmatamento, cujo alvo principal são as terras públicas não-destinadas, como são chamadas as parcelas pertencentes à União e aos estados que não foram convertidas em unidades de conservação, terras indígenas, assentamentos, concessões florestais ou mesmo em propriedades particulares.

Segundo um relatório do Greenpeace, o desmatamento nas Ôreas não-destinadas do entorno da BR-163, no ParÔ, aumentou 205% entre agosto de 2019 e julho de 2020, em comparação com o mesmo período anterior.

Como vimos na primeira reportagem da série Ladrões da Floresta, que contou a história do maior desmatamento jÔ registrado na AmazÓnia pelo Mapbiomas, a grilagem não é uma atividade amadora, e sim uma ação do crime organizado que demanda investimentos milionÔrios e a participação de múltiplos atores sociais. E, na linha de montagem dessa indústria, o sujeito que se embrenha na mata para colocÔ-la abaixo é o que mais dÔ duro, trabalhando muitas vezes em condições anÔlogas à escravidão. No topo desta cadeia produtiva, estão aqueles que financiam o desmatamento e lucram com a terra roubada, seja com a venda a terceiros ou com a produção agropecuÔria.

Entre esses dois extremos, no entanto, hĆ” agentes intermediĆ”rios que costumam passar despercebidos, mas ganham somas significativas com a grilagem. Passando-me por um fazendeiro interessado em comprar terras, conversei por WhatsApp com dois corretores de imóveis que atuam nas Ć”reas próximas Ć  rodovia federal. Ao ser confrontado pelo Intercept, ao final da apuração, um deles disse que poderia ser assassinado se seu nome fosse mencionado na reportagem. Por isso — e considerando o histórico de pistolagem e assassinatos na regiĆ£o — vamos usar nomes fictĆ­cios quando nos referirmos a ambos.

Cinco minutos após receber minha primeira mensagem, Roberto jĆ” estava a postos para buscar Ć”reas do meu interesse. Em poucos dias, me mandou quatro opƧƵes de fazendas. Uma delas, de R$ 135 milhƵes, fica no distrito de Castelo dos Sonhos e tem 3 mil hectares, dos quais 2,2 mil jĆ” foram desmatados e convertidos em pastagem. Seu principal atrativo Ć© o relevo: a Ć”rea Ć© plana, o que permite o uso de mĆ”quinas agrĆ­colas e, por consequĆŖncia, o plantio de soja. ā€œEla Ć© toda chapadĆ£o, vocĆŖ olha uma imagem e parece que jĆ” estĆ” vendo tudoā€, garantiu o corretor.

Ɓrea Ơ venda em Castelo dos Sonhos ao custo de R$ 135 milhƵes, sem tƭtulo de terra.

Ɓrea Ơ venda em Castelo dos Sonhos ao custo de R$ 135 milhƵes, sem tƭtulo de terra.

Foto enviada pelo corretor

Outra Ć”rea oferecida, essa em Novo Progresso, custa R$ 35 milhƵes e tem 1.936 hectares, quase 90% deles desmatados — o próprio anĆŗncio pontua que a Ć”rea foi alvo de uma multa e embargada pelo órgĆ£o ambiental, talvez prevendo que as autuaƧƵes (tĆ£o comuns nessa regiĆ£o) nĆ£o sejam um impeditivo para fechar o negócio. A estrutura inclui uma sede de alvenaria, torre de internet e atĆ© pista para aviĆ£o monomotor. Para completar, uma valiosa observação: ā€œĆ”rea possui ouroā€. O Intercept apurou na regiĆ£o que Ć© comum fazendeiros permitirem o ingresso de garimpeiros em suas propriedades em troca de uma porcentagem sobre o metal extraĆ­do do garimpo ilegal.

Na força da pólvora

Minhas conversas com Roberto terminaram quando ele disse que só poderia mandar a localização das fazendas se eu assinasse um documento que lhe garantisse a exclusividade do negócio. Nele, os clientes se comprometem a nĆ£o comprar imóveis ā€œatravĆ©s de outro intermediĆ”rio ou diretamente com o proprietĆ”rioā€ ou, caso venham a fazĆŖ-lo, garantem que mesmo assim vĆ£o pagar a Roberto um percentual de 6% sobre o valor da propriedade.

Enquanto isso, eu tambĆ©m trocava mensagens com Gustavo, que foi logo fazendo as perguntas de praxe para traƧar o perfil do cliente. Questionou o tamanho e o uso que eu pretendia dar Ć  Ć”rea, o valor do investimento e qual o meu nĆ­vel de exigĆŖncia em relação Ć  documentação — deixando claro que, se eu pretendesse Ć”reas regularizadas, seria preciso buscar mais ao norte, perto de SantarĆ©m.

ā€œMaravilha. Ɖ uma Ć”rea grande. Vou dar uma levantada aqui nas opƧƵes que atendam esse tamanhoā€ respondeu, depois que expliquei que procurava uma propriedade de uns 6 mil hectares para criação de gado, mas que tambĆ©m tivesse aptidĆ£o para o plantio de soja e que me daria por satisfeita com um registro no Cadastro Ambiental Rural, o CAR, e com o georreferenciamento da Ć”rea — uma planta feita a partir das coordenadas geogrĆ”ficas e limites da fazenda.

Ao longo de pouco mais de dois meses de conversa, Gustavo me ofereceu oito opƧƵes de fazendas no eixo da BR-163, entre Castelo dos Sonhos, Novo Progresso, TrairĆ£o e Altamira, cujos preƧos variavam de R$ 25 milhƵes a R$ 100 milhƵes. Caso a venda fosse concretizada, o corretor embolsaria uma comissĆ£o entre R$ 750 mil e R$ 3 milhƵes, correspondente a 3% do valor do negócio. ā€œNormalmente, aqui Ć© 5%, mas se a Ć”rea passa de R$ 10 milhƵes, a gente fala em 3%ā€, explicou.

A oferta top de linha Ć© de uma fazenda na beira do Rio Jamanxim, com quatro casas, curral, barracĆ£o, energia, internet e capacidade para 8 mil bois. Localizada entre Castelo dos Sonhos e Novo Progresso, quase metade da Ć”rea – o correspondente a 2,4 mil hectares – jĆ” estĆ” ā€œformadaā€, o que, no linguajar da grilagem, significa que a mata foi derrubada e o capim jĆ” estĆ” plantado. Tudo isso por R$ 100 milhƵes, o suficiente para comprar 12 mansƵes iguais Ć s da cantora Anitta em Miami.

Em outra oferta, de R$ 80 milhƵes, o vendedor esclarece que 2.246 dos 6.444 hectares ficam ā€œfora da reservaā€, expressĆ£o usada na regiĆ£o para se referir Ć  Floresta Nacional do Jamanxim (a segunda unidade de conservação mais desmatada do paĆ­s segundo o Inpe). A fazenda Ć© muito bem equipada: duas casas, uma casa para funcionĆ”rios, refeitório, barracĆ£o, casa de carneiro, curral grande, energia elĆ©trica, internet e ā€œexcelente estrada de acessoā€.

Nossa equipe esteve em uma das Ć”reas ofertadas por Gustavo, uma fazenda de R$ 35 milhƵes, com 4.157 hectares (dos quais quase 3 mil foram desmatados) e localizada numa Ć”rea pĆŗblica nĆ£o-destinada da UniĆ£o — a gleba CuruĆ”. Para chegar lĆ”, saĆ­mos de Novo Progresso e rodamos 50 quilĆ“metros pela rodovia federal em direção ao norte, atĆ© entrarmos em uma estrada de terra chamada Diamantino. Dirigimos por mais 60 km, passando por Ć”reas de criação de gado e outras ainda fumegantes das recentes queimadas. Enfim, chegamos Ć  fazenda do anĆŗncio: coberta de pasto e com algumas cabeƧas de gado, cercada por vastas plantaƧƵes de soja (em agosto, quando estivemos na regiĆ£o, a terra estava sendo preparada para o plantio).

ā€œĆ‰ uma regiĆ£o de muita gente rica. LĆ”, o negócio Ć© do povo que tem a pólvoraā€, explicou Gustavo por WhatsApp, numa referĆŖncia que se aplica tanto ao poder econĆ“mico quanto ao calibre dos proprietĆ”rios de terra para intimidar vizinhos e ā€œresolverā€ possĆ­veis conflitos.

Quem nĆ£o tiver tanta bala na agulha, no entanto, pode comprar uma Ć”rea de floresta ainda de pĆ©, por R$ 10 mil o hectare. ā€œMas dĆ” para a gente ver o que consegue melhorar no preƧoā€, garantiu o corretor. Ɓvido por fechar o negócio, Gustavo envia atĆ© o contato de um homem que trabalha fazendo derrubadas na regiĆ£o. ā€œPessoal para fazer derrubada nĆ£o Ć© difĆ­cil de achar aqui, nĆ£o. A gente estĆ” alinhando issoā€.

Em nota enviada ao Intercept, o Conselho Regional de Corretores de Imóveis do ParĆ”, o CRECI-PA, informou que intermediar a venda de terras sem tĆ­tulo regular Ć© uma ā€œtransgressĆ£oā€ ao código de Ć©tica da profissĆ£o, cuja punição pode ir de advertĆŖncia verbal atĆ© a apreensĆ£o da carteira profissional. O caso de Gustavo Ć© ainda mais grave, uma vezĀ  que, ao contrĆ”rio de Roberto, ele nĆ£o estĆ” registrado junto ao órgĆ£o, o que o torna um ā€œcontraventorā€ sujeito Ć  punição criminal. Procurado pela reportagem, o próprio Gustavo admitiu que usa um nĆŗmero de CRECI falso.

Ɓrea oferecida por Gustavo em Novo Progresso, cercada por lavouras de soja.

Ɓrea oferecida por Gustavo em Novo Progresso, cercada por lavouras de soja.

Foto: Bruno Kelly para o Intercept Brasil

O engenheiro da grilagem

Nenhuma das ofertas enviadas pelos corretores ouvidos na Ôrea da BR-163, assim como muitas outras encontradas na internet, especificam se as propriedades colocadas à venda têm título de terra. Mas sobram referências ao CAR, documento criado em 2012, junto com o Novo Código Florestal, para ajudar no controle ambiental.

Nas mĆ£os dos grileiros, no entanto, o registro virou um verniz de legalidade a ser aplicado sobre a apropriação de Ć”reas pĆŗblicas. Um relatório aprovado em novembro pela ComissĆ£o de Meio Ambiente do Senado identificou, atĆ© o fim de 2020, mais de 14 milhƵes de hectares de terras pĆŗblicas registrados ilegalmente como propriedades particulares no CAR, dos quais 3,4 milhƵes jĆ” haviam sido desmatados. ā€œA ligação entre a grilagem marcada pelo CAR e a retirada da floresta como meio de comprovar a posse sobre a terra […] Ć© um dos principais impulsionadores do desmatamentoā€, destacou a comissĆ£o.

O CAR é obrigatório para todos os imóveis rurais. No documento, o proprietÔrio deve informar o nome, CPF, a localização da fazenda e quais as Ôreas da propriedade destinadas à preservação permanente, reserva legal, agricultura, etc.

Como Ć© autodeclaratório, qualquer um pode registrar um CAR onde quiser, independentemente de ser ou nĆ£o dono da Ć”rea — a lei determina que o declarante comprove ā€œa propriedade ou posse ruralā€, mas nĆ£o exige o tĆ­tulo ou matrĆ­cula das terras. Teoricamente, todas essas informaƧƵes deveriam ser checadas por servidores das secretarias estaduais ou municipais de Meio Ambiente, que tambĆ©m teriam de verificar se a propriedade estĆ” sobreposta a terras indĆ­genas ou unidades de conservação. Na prĆ”tica, no entanto, apenas 1% dos CARs da AmazĆ“nia Legal passaram por essa verificação, originando uma verdadeira farra em Ć”reas protegidas.

ā€œA grilagem de terras nunca foi tĆ£o fĆ”cil, com menção honrosa ao CAR, um terrĆ­vel instrumento de grilagemā€, afirmou MaurĆ­cio Torres, professor da Universidade Federal do ParĆ”.

O registro do CAR é feito pelo site do governo federal ou pelos sistemas próprios de cada estado. Mas para imóveis acima de quatro módulos fiscais (o que nesta parte do ParÔ significa acima de 300 hectares), a inscrição demanda uma planta georreferenciada da Ôrea.

Ɖ aĆ­ que entra outra peƧa dessa engrenagem criminosa: o engenheiro da grilagem. SĆ£o profissionais capacitados para trabalhar com georreferenciamento e que estĆ£o dispostos a colocar seus conhecimentos a serviƧo da apropriação de terras pĆŗblicas.

Entre as principais atribuiƧƵes do engenheiro da grilagem — conforme revelado em forƧas-tarefas federais como a Ojuara, no Amazonas, e a Rios Voadores, no ParĆ” — estĆ” o registro de fazendas em Ć”reas pĆŗblicas em nome de laranjas. ā€œO que a gente percebeu foi um mercado em que existe especialização em serviƧos. Por exemplo, o fazendeiro jĆ” tem um consultor de geoprocessamento que avisa para ele: ā€˜Olha, essa Ć”rea aqui vocĆŖ pode ocupar, colocar em nome de laranja e depois conseguir a regularização’ā€, explicou o procurador Rafael Rocha, do MinistĆ©rio PĆŗblico Federal do Amazonas, que atuou na Ojuara.

Nessa consultoria de grilagem, as terras nĆ£o-destinadas sĆ£o o alvo nĆŗmero um. ā€œEles escolhem a Ć”rea de forma muito cuidadosa, focando nas terras nĆ£o-destinadas, porque nĆ£o querem gastar dinheiro Ć  toa invadindo propriedade privada ou Ć”rea protegidaā€, contou Rocha.

Na região da BR-163, poucos profissionais têm uma clientela tão vasta quanto Bianor Emílio Dal Magro, de Novo Progresso. A busca por seu CPF no sistema do CAR no ParÔ resulta em nada menos do que 35 pÔginas consecutivas de propriedades registradas por ele.

Quando o Intercept consultou os dados oficiais, no final de maio de 2022, o engenheiro agrĆ“nomo era responsĆ”vel pelo registro de 530 CARs na regiĆ£o, dos quais 70% estavam sobrepostos a Ć”reas pĆŗblicas nĆ£o-destinadas e 20% sobre Ć”reas protegidas – a maior parte deles, na Floresta Nacional do Jamanxim.

ā€˜Ć‰ a mesma coisa que eu invadir um apartamento e avisar o governo: ā€˜Olha, eu sou invasor, mas vou pagar o IPTU.’

Natural de Santa Catarina, Bianor tem 69 anos e trabalha na GuarÔ Agroserviços, empresa administrada pelo seu filho, Júlio Cesar Dal Magro. Júlio da GuarÔ, como é conhecido, chegou a ser preso, suspeito do assassinato do presidente regional do Sindicato dos Trabalhadores da Agricultura Familiar,  Aluisio Sampaio, o Alenquer, em outubro de 2018.

Fazendo-se passar por um proprietÔrio de terras, a equipe do Intercept entrou em contato com um funcionÔrio da GuarÔ e perguntou quanto custaria para fazer o georreferenciamento e o CAR de uma propriedade rural de pouco mais de mil hectares, localizada entre Castelo dos Sonhos e Novo Progresso. O funcionÔrio explicou que o custo seria de R$ 11.500 para o CAR e o georreferenciamento e de R$ 14.500 se também quiséssemos a inscrição do imóvel no Sigef, o sistema de governança fundiÔria do Incra.

Entre os clientes dos Dal Magro estão Delmir José Alba, o Nego Alba, que segundo as autoridades ambientais atuou junto com Jeferson Rodrigues no enorme desmatamento da AmazÓnia revelado na primeira reportagem desta série, e os Piovesan Cordeiro, grandes latifundiÔrios que são campeões em autuações ambientais dentro da Floresta Nacional  Jamanxim, segundo reportagem da Agência Pública.

Em outubro de 2021, Bianor e os Piovesan foram alvo da SOS Jamanxim. Deflagrada pela Polícia Federal, a operação revelou uma organização criminosa que desmatou cerca de 15 mil hectares na unidade de conservação. Ao engenheiro, cujo escritório foi alvo de busca e apreensão, cabia a tarefa de registrar as propriedades ilegais no sistema do CAR, vÔrias delas em nome de laranjas. A Polícia Federal não quis comentar o caso, alegando que o processo corre em segredo de justiça.

Para Torres, Bianor Ć© bem mais do que um prestador de serviƧos aos grileiros locais. ā€œEle tem uma base de dados muito boa, sabe o que estĆ” acontecendo aqui e ali. Ɖ mais do que um desenhistaā€.

Escritório do engenheiro Bianor Dal Magro, que atende grandes grileiros da região de Novo Progresso.

Escritório do engenheiro Bianor Dal Magro, que atende grandes grileiros da região de Novo Progresso.

Foto: Bruno Kelly para o Intercept Brasil

Quebra-cabeƧas de CAR

Graças ao seu conhecimento de georreferenciamento, Bianor é capaz de redesenhar a realidade de acordo com o interesse de seus clientes. E são vÔrios os interesses em jogo. Em 2016, por exemplo, o objetivo de quem o contratou era conseguir um financiamento de R$ 67,5 mil por meio  do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar, o Pronaf. Supostamente, o dinheiro seria usado para a compra de 110 matrizes bovinas e três touros reprodutores para uma propriedade familiar.

NĆ£o havia, no entanto, propriedade alguma – e o dinheiro jamais seria usado para a compra de qualquer animal. Isso nĆ£o impediu Bianor de montar a planta de uma fazenda e registrĆ”-la no CAR em nome de um laranja, de maneira a viabilizar o emprĆ©stimo do Banco da AmazĆ“nia ā€œusando de meios fraudulentos, o que lesou interesse pĆŗblico federalā€, afirma a denĆŗncia do MinistĆ©rio PĆŗblico Federal, o MPF, feita no mesmo ano. O caso ainda aguarda julgamento.

Ɓreas registradas no CAR por Bianor Dal Magro.

Ɓreas registradas no CAR por Bianor Dal Magro.

Mapa: Rodrigo Bento/The Intercept Brasil

O trabalho de profissionais como Bianor tambĆ©m Ć© muito Ćŗtil para os criadores de gado que desmataram ilegalmente suas propriedades e que precisam achar uma forma de driblar as exigĆŖncias dos frigorĆ­ficos que assinaram o TAC da Carne — acordo no qual se comprometem com o MPF a excluir de sua lista de fornecedores as fazendas com desmatamento ilegal e uso de mĆ£o de obra anĆ”loga Ć  escrava. Uma das saĆ­das Ć© fracionar o CAR, ou seja, fazer dois registros para uma mesma propriedade, um do lado do outro.

ā€œĆ€s vezes, a mesma fazenda Ć© dividida em dois CARs, um com desmatamento e outro sem. Na hora de vender o gado, o pecuarista diz que o animal saiu da fazenda sem desmatamento, quando na verdade Ć© tudo uma fazenda só. Isso tem acontecido com grande frequĆŖnciaā€, explicou Raoni RajĆ£o, professor de gestĆ£o ambiental da Universidade Federal de Minas Gerais, a UFMG, e pesquisador no Wilson Center, em Washington.

Tal estratĆ©gia fica clara em uma das ofertas enviadas pelo corretorĀ  Gustavo Ć  reportagem, que menciona 200 alqueires que foram alvo de uma multa ambiental e estĆ£o ā€œcom GEO separadoā€.

Área desmatada, queimada e loteada próxima a Novo Progresso.

Área desmatada, queimada e loteada próxima a Novo Progresso.

Foto: Bruno Kelly para o Intercept Brasil

TĆ­tulo Ć  vista

O fracionamento de uma mesma propriedade infringe a instrução normativa que regula o registro do CAR. Mesmo assim, a divisão do imóvel e seu registro em nome de laranjas são usados por quem tenta burlar a lei de regularização fundiÔria, que permite a titulação de Ôreas de até 2,5 mil hectares e apenas a pessoas que não sejam donas de outro imóvel. Além disso, quanto menor a propriedade, mais rÔpido e barato é para conseguir o título. Fazendas de até quatro módulos fiscais dispensam vistoria prévia do Incra, enquanto propriedades de até um módulo fiscal têm direito à titulação gratuita.

A estratĆ©gia fica clara em um dos anĆŗncios enviados por Gustavo: um vĆ­deo elaborado, com captação profissional, feito com uso de drone e embalado por uma trilha sonora que parece extraĆ­da de filme de aventura. As imagens mostram uma ampla fazenda de 5 mil hectares cortada por trĆŖs córregos, com uma casa de dois andares e trĆŖs quartos, dois currais, trĆŖs casas para vaqueiros e uma represa com roda d’Ôgua. Entre os atributos,Ā  o vendedor destaca que ā€œa Ć”rea estĆ” aguardando titulação em dois tĆ­tulos de 2.225 hectaresā€.

VĆ­deo de fazenda negociada por Gustavo. AnĆŗncio diz que ā€œĆ”rea estĆ” aguardando titulação em dois tĆ­tulos de 2.225 hectaresā€.

Ɖ aĆ­ que entra, mais uma vez, o serviƧo de especialistas como Bianor, capazes de transformar um latifĆŗndio, que nĆ£o se enquadra nas regras de titulação, em vĆ”rias ā€œpequenas propriedadesā€.

O conhecimento de Bianor foi aplicado algumas vezes no Projeto de Desenvolvimento SustentĆ”vel Terra Nossa, em Novo Progresso. Trata-se de um projeto de reforma agrĆ”ria em que atuou desde a demarcação dos primeiros lotes, em 2006, e chegou a registrar uma Ć”rea em seu nome. O assentamento, instalado em uma Ć”rea desmembrada em 2003 da terra indĆ­gena BaĆŗ por pressĆ£o de fazendeiros, virou palco de inĆŗmeros conflitos de terra. Só em 2018, foram quatro assassinatos: alĆ©m de Alenquer, morreram os irmĆ£os Romar e Ricardo Roglin. AntĆ“nio Rodrigues dos Santos, conhecido como ā€œBigodeā€, foi dado como morto e seu corpo nem sequer foi encontrado.

O caso envolvendo Bianor aconteceu na Fazenda Coringa, uma Ôrea de 6,7 mil hectares dominada por Benedito Gonçalves Neto e explorada pela empresa Chapleau Exploração Mineral. Segundo os técnicos federais que estiveram lÔ em 2007, o engenheiro dividiu a propriedade em diversos CARs, que foram registrados em nome de laranjas e encaminhados ao Incra para dar entrada no processo de regularização.

Mais ou menos na mesma Ʃpoca, o engenheiro repetiu o mesmo modus operandi em outra propriedade parcialmente sobreposta ao assentamento Terra Nossa. Dessa vez, uma Ɣrea de 21.860 hectares, ocupada por Bruno Heller, foi dividida em nome de diversos parentes do real proprietƔrio. O Intercept conseguiu identificar 10 Ɣreas contƭnuas registradas em nome da famƭlia Heller na base do CAR do ParƔ e verificou que nove delas foram registradas por Bianor Dal Magro.

ā€œIdentificamos a relação da GuarĆ” AgrosserviƧos com a grilagem de terras na regiĆ£oā€, afirmou o Incra em um diagnóstico sobre o assentamento publicado em 2018, que recomendou ao superintedente regional do Incra ā€œo cancelamento do credenciamento para a realização de serviƧos topogrĆ”ficos da empresa GuarĆ” AgrosserviƧosā€. Em nota, a autarquia informou que a recomendação nĆ£o foi cumprida, porque apenas pessoas fĆ­sicas sĆ£o credenciadas para prestação de serviƧos de georreferenciamento. Dal Magro, no entanto, tampouco foi descredenciado.

ā€˜Ć‰ muito raro achar fazenda com documento na regiĆ£o.’

AlĆ©m do CAR, os grileiros apresentam outros documentos igualmente nulos do ponto de vista jurĆ­dico para convencer potenciais compradores da legalidade das Ć”reas Ć  venda. ā€œGEO, CAR e termo de posseā€, diz um anĆŗncio. ā€œCAR, GEO, ITRā€, descreve o outro. Assim como o CAR, o ITR, imposto territorial rural, tambĆ©m Ć© autodeclaratório. ā€œSe eu quiser pagar o ITR do Rio Tapajós, a Receita Federal aceitaā€, exemplificou Torres.

Na prĆ”tica, o que os grileiros fazem Ć© colocar o estado a serviƧo da grilagem. ā€œĆ‰ a mesma coisa que eu invadir um apartamento e avisar o governo: ā€˜Olha, eu sou invasor, mas vou pagar o IPTU’. Assim como o registro no CAR, o pagamento do ITR Ć© uma forma de demonstrar a boa-fĆ© da ocupaçãoā€, explicou Paulo Barreto, pesquisador-sĆŖnior do Imazon.

Na ponta desse processo hĆ” sempre a expectativa de ser premiado com o tĆ­tulo de terra. ā€œVocĆŖ pega algo absolutamente ilegal, que Ć© o roubo de terras, e em cima dessa ilegalidade vocĆŖ vai atrelando relaƧƵes sociais legais. DaĆ­, chega uma hora em que vocĆŖ tem tanta coisa legal atrelada a essa ilegalidade que todo o esquema Ć© anistiadoā€, afirmou Torres.

O Intercept entrou em contato com a advogada e filha de Bianor, Rafaele Dal Magro, mas seu pai não quis se manifestar. Apesar do histórico de fraudes, Bianor não responde a nenhum processo administrativo diante dos conselhos regionais de engenharia e agronomia, os CREAs, órgãos responsÔveis por fiscalizar o trabalho desses profissionais.

O CREA de Santa Catarina, no qual Bianor tem seu registro principal, informou que ā€œhavendo denĆŗncia Ć©tica contra o profissional serĆ£o adotadas as medidas legais cabĆ­veisā€, sem detalhar quais medidas seriam essas. JĆ” o CREA do ParĆ”, estado de atuação de Bianor, informou que o profissional que infringir o código de Ć©tica da categoria ā€œpode sofrer as sanƧƵes de advertĆŖncia reservada, censura pĆŗblica, suspensĆ£o e cancelamento de registro e multaā€.

O Conselho Federal de Engenharia e Agronomia, se limitou a dizer que a conduta ética dos profissionais é regulamentada pelo código de ética da categoria.

No Incra, Bianor recebeu uma advertência por ter registrado uma fazenda no Sistema de Gestão FundiÔria sobreposta à Floresta Estadual do Iriri, no ParÔ. Por e-mail, a autarquia informou ao Intercept que não cabe a ela apurar eventuais irregularidades em registros públicos de outros órgãos, como é o caso do CAR.

O Serviço Florestal Brasileiro, responsÔvel pela implementação do CAR em nível federal, informou que seu sistema jÔ não permite o cadastro de propriedades sobrepostas a Ôreas indígenas e que pretende verificar sobreposições com outras terras de domínio da União.

A Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Sustentabilidade do ParÔ, a Semas, informou que não consegue fazer o bloqueio automÔtico das propriedades sobrepostas a Ôreas públicas, pois o seu sistema de registro do CAR estÔ vinculado ao do governo federal.

Esta reportagem faz parte do projeto Ladrões de Floresta, que investiga a grilagem em terras públicas da AmazÓnia e conta com o apoio da Rainforest Investigations Network, do Pulitzer Center.

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