Foto: Roberto Casimiro /Fotoarena/Folhapress
Ao longo da corrida eleitoral de 2022, o entĆ£o candidato Luiz InĆ”cio Lula da Silva assumiu por diversas vezes o compromisso de desmembrar o atual MinistĆ©rio da JustiƧa e da SeguranƧa PĆŗblica em dois ā alegava ser necessĆ”rio dar maior prioridade Ć seguranƧa. Passadas as eleiƧƵes, em 9 de dezembro, pouco antes da despedida do Brasil da Copa, o petista alterou sua orientação, no que alguns viram como a primeira quebra de promessa de campanha. Lula anunciou a manutenção do desenho adotado por Bolsonaro de um ministĆ©rio Ćŗnico, a ser chefiado pelo senador FlĆ”vio Dino, do PSB maranhense.
Em entrevistas Ć imprensa, Dino disse que a manutenção do modelo de Bolsonaro foi proposta pela equipe de transição, após ponderar melhor sobre os efeitos do desmembramento. O fundamento, disse o futuro ministro, Ć© a necessidade de integração entre a JustiƧa e a SeguranƧa PĆŗblica como esferas de atuação do estado. Afinal, de pouco adianta a polĆcia agir numa direção e os tribunais ou o MinistĆ©rio PĆŗblico agirem em outra. Uma boa polĆtica de seguranƧa requer sinergia entre as diferentes engrenagens do sistema, o que reter os dois temas numa mesma pasta ajudaria a promover.
A fala de Dino soa razoÔvel, mas a verdade é que não existe fórmula exata para se organizar governos, havendo prós e contras em modelos com maior ou menor concentração.
Criar ministĆ©rios especĆficos pode ampliar custos, nĆ£o só financeiros (o que costuma interessar mais Ć imprensa), mas de coordenação. Mas tambĆ©m ajuda a dar visibilidade Ć s pautas e permite maior especialização e agilidade na gestĆ£o. Dividir foi a solução adotada, por exemplo, na Economia, Ć”rea em que Lula sinalizou o desmembramento da superpasta ocupada por Paulo Guedes em nada menos que trĆŖs unidades: Fazenda; Planejamento; e IndĆŗstria e ComĆ©rcio.
Nesse contexto, a opção de Lula por um ministĆ©rio Ćŗnico para a JustiƧa e a SeguranƧa parece fundada mais em razƵes prĆ”ticas que teóricas. Uma delas, senĆ£o a principal, Ć© a ocupação em massa, por policiais e outros agentes do setor, dos cargos e funƧƵes comissionadas do atual MinistĆ©rio da JustiƧa e da SeguranƧa PĆŗblica āĀ uma realidade com a qual a equipe de transição certamente deve ter se defrontado. Essa prĆ”tica teve inĆcio ainda nos governos do PT, mas se consolidou nos governos Michel Temer e Jair Bolsonaro.
O ministĆ©rio nĆ£o divulga dados precisos sobre o perfil dos ocupantes de seus cargos e funƧƵes, mas quem anda pelos corredores do PalĆ”cio da JustiƧa sabe que hoje o prĆ©dio mais se parece com um quartel ou batalhĆ£o. A criação de um MinistĆ©rio da SeguranƧa agravaria o cenĆ”rio, gerando pressĆ£o para que as polĆcias fossem ali acomodadas, numa divisĆ£o de espaƧos entre ājuristasā no MinistĆ©rio da JustiƧa e policiais no MinistĆ©rio da SeguranƧa, que colocaria em risco (se Ć© que nĆ£o subverteria de vez) a capacidade do terceiro governo Lula de construir um legado próprio no combate Ć violĆŖncia.
Policiais podem trazer uma contribuição importante para a formulação e implementação de polĆticas de seguranƧa, mas elas nĆ£o podem ser matĆ©ria exclusiva da polĆcia. Pelo contrĆ”rio, uma boa polĆtica de seguranƧa envolve aƧƵes pĆŗblicas e sociais de prevenção; elaboração de planos e pactos integrando UniĆ£o, estados e municĆpios; e produção de bons diagnósticos sobre a dinĆ¢mica da violĆŖncia nos territórios. Isso tudo demanda a capacidade de diĆ”logo com ativistas de ONGs, universidades, e setores como educação, saĆŗde e assistĆŖncia social nos trĆŖs nĆveis de governo ā federal, estadual e municipal. Policiais nĆ£o tĆŖm treinamento para isso.
A tarefa do governo Lula em relação Ć s polĆcias Ć© subordinĆ”-las Ć lei e aos governos eleitos.
AlĆ©m disso, hĆ” intensas disputas corporativas entre as diferentes polĆcias, de maneira que a ocupação de cargos e funƧƵes, por exemplo, por policiais civis gera uma demanda de representação por policiais militares com a qual o governo passa a ter que lidar. Com toda uma estrutura nova a ser ocupada, o MinistĆ©rio da SeguranƧa PĆŗblica desmembrado poderia facilmente sucumbir a essa lógica de loteamento.
Por fim, Ć© inegĆ”vel que as polĆcias se tornaram muito próximas do bolsonarismo, como ficou evidente pela atuação da PolĆcia RodoviĆ”ria Federal nas eleiƧƵes e pela (nĆ£o) reação de diversas polĆcias aos atos golpistas que se seguiram Ć s eleiƧƵes. TomarĆ” tempo e energia polĆtica desfazer essa associação. AtĆ© lĆ”, a tarefa do governo Lula em relação Ć s polĆcias Ć© subordinĆ”-las Ć lei e aos governos eleitos āĀ ou, como Dino tem dito, fazer delas uma verdadeira burocracia. A criação de uma pasta que, em maior ou menor grau, acabaria inevitavelmente controlada por policiais poderia comprometer esses esforƧos āĀ isso se a pasta nĆ£o se convertesse num instrumento para entrincheirar o bolsonarismo no estado.
Como disse Lula na campanha, a seguranƧa pĆŗblica deve ser uma prioridade do novo governo. Foi o fracasso das gestƵes do PT no setor que deu combustĆvel a polĆticos de extrema direita, como Jair Bolsonaro e Sergio Moro, cujas propostas āĀ armamento da população civil e licenƧa a policiais para matar āĀ sĆ£o tĆ£o inócuas quanto atrativas para amplos segmentos da população.
Apesar da queda dos Ćndices de homicĆdios, o Brasil continua sendo um paĆs violento,Ā e algumas formas de violĆŖncia aumentaram, como a violĆŖncia de gĆŖnero, o crime organizado na AmazĆ“nia e as mortes por armas de fogo em conflitos interpessoais. E a legislação atual āĀ um dos poucos legados positivos do governo Temer āĀ atribui ao governo federal a tarefa de coordenar uma polĆtica nessa Ć”rea, o que torna menos plausĆvel a saĆda adotada no governo Dilma de dizer que a seguranƧa Ć© matĆ©ria de competĆŖncia dos estados. Tudo isso convidaria a criação de um ministĆ©rio próprio para a seguranƧa pĆŗblica.
Mas decisƵes polĆticas tĆŖm seu contexto e, se na desafiadora transição para um paĆs pós-Bolsonaro, criar esse ministĆ©rio significaria permitir a colonização da pauta pelas polĆcias, Ć© melhor trabalhar com o que temos.
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