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Lula mantém Justiça e Segurança Pública juntas para evitar criação de ministério-quartel

SÃO PAULO, SP - 15.12.2022: LULA PARTICIPA DO NATAL DOS CATADORES SP - O presidente eleito Luiz InÔcio Lula da Silva, (PT) participa do Natal dos Catadores, organizado pela Associação Nacional dos Catadores, em São Paulo, nesta quinta feira (15). (Foto: Roberto Casimiro /Fotoarena/Folhapress) ORG XMIT: 2311131

Foto: Roberto Casimiro /Fotoarena/Folhapress

Ao longo da corrida eleitoral de 2022, o entĆ£o candidato Luiz InĆ”cio Lula da Silva assumiu por diversas vezes o compromisso de desmembrar o atual MinistĆ©rio da JustiƧa e da SeguranƧa PĆŗblica em dois – alegava ser necessĆ”rio dar maior prioridade Ć  seguranƧa. Passadas as eleiƧƵes, em 9 de dezembro, pouco antes da despedida do Brasil da Copa, o petista alterou sua orientação, no que alguns viram como a primeira quebra de promessa de campanha. Lula anunciou a manutenção do desenho adotado por Bolsonaro de um ministĆ©rio Ćŗnico, a ser chefiado pelo senador FlĆ”vio Dino, do PSB maranhense.

Em entrevistas à imprensa, Dino disse que a manutenção do modelo de Bolsonaro foi proposta pela equipe de transição, após ponderar melhor sobre os efeitos do desmembramento. O fundamento, disse o futuro ministro, é a necessidade de integração entre a Justiça e a Segurança Pública como esferas de atuação do estado. Afinal, de pouco adianta a polícia agir numa direção e os tribunais ou o Ministério Público agirem em outra. Uma boa política de segurança requer sinergia entre as diferentes engrenagens do sistema, o que reter os dois temas numa mesma pasta ajudaria a promover.

A fala de Dino soa razoÔvel, mas a verdade é que não existe fórmula exata para se organizar governos, havendo prós e contras em modelos com maior ou menor concentração.

Criar ministérios específicos pode ampliar custos, não só financeiros (o que costuma interessar mais à imprensa), mas de coordenação. Mas também ajuda a dar visibilidade às pautas e permite maior especialização e agilidade na gestão. Dividir foi a solução adotada, por exemplo, na Economia, Ôrea em que Lula sinalizou o desmembramento da superpasta ocupada por Paulo Guedes em nada menos que três unidades: Fazenda; Planejamento; e Indústria e Comércio.

Nesse contexto, a opção de Lula por um ministĆ©rio Ćŗnico para a JustiƧa e a SeguranƧa parece fundada mais em razƵes prĆ”ticas que teóricas. Uma delas, senĆ£o a principal, Ć© a ocupação em massa, por policiais e outros agentes do setor, dos cargos e funƧƵes comissionadas do atual MinistĆ©rio da JustiƧa e da SeguranƧa PĆŗblica – uma realidade com a qual a equipe de transição certamente deve ter se defrontado. Essa prĆ”tica teve inĆ­cio ainda nos governos do PT, mas se consolidou nos governos Michel Temer e Jair Bolsonaro.

O ministĆ©rio nĆ£o divulga dados precisos sobre o perfil dos ocupantes de seus cargos e funƧƵes, mas quem anda pelos corredores do PalĆ”cio da JustiƧa sabe que hoje o prĆ©dio mais se parece com um quartel ou batalhĆ£o. A criação de um MinistĆ©rio da SeguranƧa agravaria o cenĆ”rio, gerando pressĆ£o para que as polĆ­cias fossem ali acomodadas, numa divisĆ£o de espaƧos entre ā€œjuristasā€ no MinistĆ©rio da JustiƧa e policiais no MinistĆ©rio da SeguranƧa, que colocaria em risco (se Ć© que nĆ£o subverteria de vez) a capacidade do terceiro governo Lula de construir um legado próprio no combate Ć  violĆŖncia.

Policiais podem trazer uma contribuição importante para a formulação e implementação de polĆ­ticas de seguranƧa, mas elas nĆ£o podem ser matĆ©ria exclusiva da polĆ­cia. Pelo contrĆ”rio, uma boa polĆ­tica de seguranƧa envolve aƧƵes pĆŗblicas e sociais de prevenção; elaboração de planos e pactos integrando UniĆ£o, estados e municĆ­pios; e produção de bons diagnósticos sobre a dinĆ¢mica da violĆŖncia nos territórios. Isso tudo demanda a capacidade de diĆ”logo com ativistas de ONGs, universidades, e setores como educação, saĆŗde e assistĆŖncia social nos trĆŖs nĆ­veis de governo – federal, estadual e municipal. Policiais nĆ£o tĆŖm treinamento para isso.

A tarefa do governo Lula em relação às polícias é subordinÔ-las à lei e aos governos eleitos.

Além disso, hÔ intensas disputas corporativas entre as diferentes polícias, de maneira que a ocupação de cargos e funções, por exemplo, por policiais civis gera uma demanda de representação por policiais militares com a qual o governo passa a ter que lidar. Com toda uma estrutura nova a ser ocupada, o Ministério da Segurança Pública desmembrado poderia facilmente sucumbir a essa lógica de loteamento.

Por fim, Ć© inegĆ”vel que as polĆ­cias se tornaram muito próximas do bolsonarismo, como ficou evidente pela atuação da PolĆ­cia RodoviĆ”ria Federal nas eleiƧƵes e pela (nĆ£o) reação de diversas polĆ­cias aos atos golpistas que se seguiram Ć s eleiƧƵes. TomarĆ” tempo e energia polĆ­tica desfazer essa associação. AtĆ© lĆ”, a tarefa do governo Lula em relação Ć s polĆ­cias Ć© subordinĆ”-las Ć  lei e aos governos eleitos – ou, como Dino tem dito, fazer delas uma verdadeira burocracia. A criação de uma pasta que, em maior ou menor grau, acabaria inevitavelmente controlada por policiais poderia comprometer esses esforƧos – isso se a pasta nĆ£o se convertesse num instrumento para entrincheirar o bolsonarismo no estado.

Como disse Lula na campanha, a seguranƧa pĆŗblica deve ser uma prioridade do novo governo. Foi o fracasso das gestƵes do PT no setor que deu combustĆ­vel a polĆ­ticos de extrema direita, como Jair Bolsonaro e Sergio Moro, cujas propostas – armamento da população civil e licenƧa a policiais para matar – sĆ£o tĆ£o inócuas quanto atrativas para amplos segmentos da população.

Apesar da queda dos Ć­ndices de homicĆ­dios, o Brasil continua sendo um paĆ­s violento,Ā e algumas formas de violĆŖncia aumentaram, como a violĆŖncia de gĆŖnero, o crime organizado na AmazĆ“nia e as mortes por armas de fogo em conflitos interpessoais. E a legislação atual – um dos poucos legados positivos do governo Temer – atribui ao governo federal a tarefa de coordenar uma polĆ­tica nessa Ć”rea, o que torna menos plausĆ­vel a saĆ­da adotada no governo Dilma de dizer que a seguranƧa Ć© matĆ©ria de competĆŖncia dos estados. Tudo isso convidaria a criação de um ministĆ©rio próprio para a seguranƧa pĆŗblica.

Mas decisões políticas têm seu contexto e, se na desafiadora transição para um país pós-Bolsonaro, criar esse ministério significaria permitir a colonização da pauta pelas polícias, é melhor trabalhar com o que temos.

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