Enfrentar o legado anti-mulher da ex-ministra Damares Alves serĆ” um desafio do novo governo frente Ć ala conservadora do Congresso que a apoiava ā e de que ela agora participa como senadora..
Foto: Bruno Santos/Folhapress
Desde 1Āŗ de janeiro, contamos com um MinistĆ©rio das Mulheres; um dos Direitos Humanos; um da Igualdade Racial; e um dos Povos OriginĆ”rios no lugar da amĆ”lgama bolsonarista que foi o MinistĆ©rio da Mulher, da FamĆlia e dos Direitos Humanos de Damares Alves. Com filiação religiosa pentecostal, ela colocou a famĆlia no centro de suas polĆticas. A retirada do termo do nome dos ministĆ©rios Ć© bom sinal, e o governo Lula indica que vai mudar a rota perigosa em que a ex-ministra nos colocou ā jĆ” que Ć© justamente no seio familiar que mulheres, crianƧas e adolescentes mais sofrem violĆŖncia.
Os rumos tomados por Damares desdobraram-se de dois fatores, um local e outro mais amplo, ligado Ć ascensĆ£o da direita global. ComeƧo pelo segundo, sua filiação Ć agenda antigĆŖnero internacional. Surgida nos anos 1990 nos debates católicos conservadores, ela Ć© uma reação do Vaticano e de pensadores religiosos diante das propostas de acordos e tratados internacionais ā firmados por meio da ONU e em torno das ConferĆŖncias do Cairo e Beijing ā que faziam uso do termo āgĆŖneroā na defesa de direitos das mulheres e minorias.
O movimento antigĆŖnero questionava certas ideias feministas e de igualdade de direitos entre homens e mulheres. Particularmente, aquelas ligadas Ć tentativa de se construir direitos reprodutivos e o reconhecimento do aborto enquanto uma questĆ£o de saĆŗde pĆŗblica. A partir dessa visĆ£o impulsionada pela igreja, o conceito de gĆŖnero seria uma āideologiaā que visaria destruir as famĆlias e o casal heterossexual. Aqui, a famĆlia nuclear heteronormativa aparece como āfamĆlia naturalā, por oposição ao gĆŖnero como algo falso e artificial.
Essa agenda se alia a um discurso muito promovido no Brasil, que costuma responsabilizar as famĆlias supostamente ādesestruturadasā pela violĆŖncia urbana ou pela rebeldia de alunos no ambiente escolar, culpando muitas vezes o divórcio ou a emancipação das mulheres trazida pelo feminismo. O fato de que muitas famĆlias sĆ£o chefiadas por mulheres ā no censo de 2010, era o caso de 37,3% dos lares, quase nove a cada 10 deles sem a presenƧa de um cĆ“njuge ā aparece como um suposto problema social. No entanto, os arranjos familiares no Brasil sempre foram mais variados do que o ideal de famĆlia urbana fundada no casal heterossexual, como tantos estudos históricos jĆ” demonstraram.
O modelo ideal de famĆlia heteronormativa formada por casal e filhos, vivendo em um domicĆlio independente, foi promovido no antigo governo como se a famĆlia fosse o sujeito dos direitos a ser defendido. Vista como unidade bĆ”sica da sociedade, a manutenção das famĆlias foi privilegiada pelos serviƧos de atendimento Ć violĆŖncia domĆ©stica, que passaram a insistir na conservação do nĆŗcleo familiar em lugar da proteção efetiva Ć s vĆtimas de violĆŖncia domĆ©stica, reforƧando que elas devem buscar a harmonia e a recomposição familiar mesmo em contexto de abusos, com o fim de evitar uma separação.
Ć resultado dessa perspectiva a proposta feita pelo governo Jair Bolsonaro de um corte de 94% da verba destinada a polĆticas de combate Ć violĆŖncia contra mulheres em 2023 ā assim como o esforƧo de Damares para que crianƧas estupradas nĆ£o tivessem acesso ao aborto legal, em casos que ganharam destaque na imprensa nos Ćŗltimos anos.
Vem tambĆ©m daĆ o reforƧo de estereótipos de gĆŖnero que aprisionam mulheres Ć função de mĆ£es e cuidadoras do lar, dedicadas aos filhos e ao marido, enquanto o homem mantĆ©m maior poder, assumindo o papel de autoridade e a responsabilização pelo sustento. āMeninas vestem rosa, meninos vestem azulā foi, afinal de contas, o mote do governo, inspirado pelo movimento antigĆŖnero internacional.
O maior desafio serĆ” enfrentar o tanto que o foco na famĆlia agrada ao Congresso conservador.
Ao analisarmos os dados de violĆŖncia domĆ©stica e feminicĆdios, fica claro que esses estereótipos estĆ£o imbricados Ć s agressƵes. Ou seja, muitas vezes, uma mulher Ć© agredida ou mesmo assassinada por seu companheiro por nĆ£o cumprir o ideal de esposa imaginado por ele ā e promovido oficialmente nos Ćŗltimos quatro anos pelo governo. Ć no espaƧo domĆ©stico, lembremos, que essas duas formas de violĆŖncia mais acontecem. Segundo o Ćŗltimo AnuĆ”rio Brasileiro de SeguranƧa PĆŗblica, 65,5% dos feminicĆdios foram cometidos na residĆŖncia da vĆtima. Essa ĆŖnfase na famĆlia e a redução da verba para polĆticas de atendimento Ć s vĆtimas de violĆŖncia tende, no mĆ©dio prazo, a gerar um aumento dos casos de agressƵes e feminicĆdios.
O modelo ideal de famĆlia, no entanto, nĆ£o Ć© aquele que realmente protege as crianƧas, como quis fazer crer a ex-ministra. O mesmo anuĆ”rio aponta ainda para cerca de meio milhĆ£o de estupros por ano, 75,5% deles cometidos contra menores de 14 anos ā ou seja, estupros de vulnerĆ”vel ā e apenas 10% efetivamente denunciados. Praticamente nove a cada 10 vĆtimas de atĆ© 13 anos sĆ£o meninas, e 80% de seus agressores sĆ£o conhecidos delas ā sĆ£o pais, padrastos, parentes, vizinhos, amigos, conhecidos da famĆlia.
A verdadeira pauta de direitos humanos nĆ£o Ć© a defesa da famĆlia. Se os dados apontam que as relaƧƵes familiares sĆ£o geradoras de conflitos e agressƵes contra mulheres e crianƧas, Ć© preciso retomar a defesa das mulheres, das crianƧas e adolescentes ā o que, muitas vezes, passa por protegĆŖ-las de nĆŗcleos familiares marcados pela desigualdade e pela repetida violĆŖncia.
A nova ministra da Mulher, Cida GonƧalves, criticou o foco dado pelo MinistĆ©rio da Mulher, da FamĆlia e dos Direitos Humanos Ć famĆlia patriarcal em detrimento das mulheres em seu discurso de posse na Ćŗltima terƧa-feira.
Foto: Eduardo Anizelli/Folhapress
O maior desafio para essa mudanƧa Ć© o quanto o foco na famĆlia agrada a amplos setores conservadores que tomaram o Executivo por quatro anos e seguirĆ£o presentes no Congresso, onde o discurso antigĆŖnero vem ganhando espaƧo desde o inĆcio dos anos 2000 e mantĆ©m sua forƧa. Encampado por amplos setores das bancadas religiosas, ele permitiu inclusive a coalizĆ£o entre evangĆ©licos e católicos conservadores.
Essa alianƧa continua atuando e jĆ” vinha marcando sua posição em diversas propostas legislativas desde o governo Dilma ā algumas delas, projetadas em torno de figuras de grande poder polĆtico, como Eduardo Cunha, Silas Malafaia, ou Marco Feliciano. Sua forƧa polĆtica foi materializada, por exemplo, na retirada do termo āgĆŖneroā do Plano Nacional de Educação, em 2014, e no domĆnio que conseguiram em postos chave, como a ComissĆ£o de Direitos Humanos da CĆ¢mara dos Deputados.
Com um Congresso repleto de expoentes do bolsonarismo ā como a própria Damares Alves, agora senadora pelo Distrito Federal ā retirar da unidade familiar o foco que ganhou nos Ćŗltimos quatro anos serĆ” um desafio. Mas os direitos das mulheres, estejam eles no campo do enfrentamento Ć violĆŖncia ou da autonomia sexual e reprodutiva, só avanƧarĆ£o se o governo Lula entrar nesta batalha, como indica fazer ao recompor o MinistĆ©rio das Mulheres, comandado por Cida GonƧalves, com novas pastas e secretarias voltadas Ć promoção de direitos humanos.
Outro sinal positivo veio da nova ministra Cida GonƧalves, que destacou em seu discurso de posse na terƧa-feira, dia 3, que o antigo MinistĆ©rio da Mulher, da FamĆlia e dos Direitos Humanos levou a cabo um āprojeto de destruiçãoā em que āa mulher como sujeito de direitos só foi vista e pensada dentro de uma construção determinada de famĆlia patriarcalā. Ela prosseguiu: āA famĆlia no singular apaga a diversidade brasileira e a centralidade da mulher enquanto foco de elaboração e implementação das polĆticas. HĆ” famĆlias plurais e no plural. Este Ć© um ministĆ©rio que as reconhece e que as acolheā.
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AgradeƧo Ć Jacqueline Moraes Teixeira e Ć MarĆlia Moschkovich, que me auxiliaram nessa reflexĆ£o.
The post Ć urgente tirar a famĆlia do foco dos ministĆ©rios das Mulheres e dos Direitos Humanos appeared first on The Intercept.
