Foto: Joedson Alves/Anadolu Agency via Getty Images
8 de janeiro. Quem poderia prever o que aconteceu em BrasĆlia? Quem poderia prever que a mĆ”quina de desinformação montada pela extrema direita brasileira seria capaz de mobilizar e coordenar milhares de pessoas em um verdadeiro ato de terrorismo? Quem poderia prever que eles, enfim, ultrapassariam os limites das redes sociais e de seus acampamentos golpistas após tantas ameaƧas?
Tem anos que grupos de extrema direita vĆŖm disseminando livremente a ideia de que a democracia Ć©, no fundo, um empecilho para a revolução conservadora que tanto almejam. Ora clamando por uma intervenção das ForƧas Armadas, ora afirmando que eles mesmos iriam āucranizar o Brasilā, uma referĆŖncia Ć onda de protestos violentos ocorridos no paĆs europeu entre 2013 e 2014, que resultaram na ascensĆ£o de grupos neofascistas.
O próprio ex-presidente Jair Bolsonaro e seus filhos jamais se furtaram de estimular esse pensamento entre seus apoiadores. Muito, mas muito pelo contrĆ”rio. Em diversos momentos, Jair falou que poderia ser obrigado pela ação de seus opositores ā leia-se, os limites constitucionais que lhe eram impostos pelo Supremo Tribunal Federal, o STF ā a agir fora das āquatro linhas da Constituiçãoā. JĆ” Eduardo chegou a falar sem qualquer constrangimento que chegaria o momento em que seu pai seria obrigado a ātomar uma medida enĆ©rgicaā contra seus opositores polĆticos e que, nesse momento, āele seria chamado de ditadorā.
Enquanto isso, a mĆ”quina de desinformação da extrema direita seguia o seu rumo, alimentando diariamente com notĆcias falsas a revolta contra o āsistemaā, reiteradamente atestando a incapacidade do próprio Bolsonaro de superĆ”-lo. Sua derrota nas urnas em outubro, por exemplo, foi vista como a prova definitiva de que o āsistemaā era corrupto na origem. O processo eleitoral, que sempre esteve na mira dessa mĆ”quina, era apenas um jogo de cartas marcadas, nas quais eles jamais venceriam. A conclusĆ£o Ć© óbvia: chegava o momento de ātomar uma medida enĆ©rgicaā.
8 de janeiro de 2023. Milhares de pessoas se dirigem a BrasĆlia. Em um vĆdeo postado em suas redes sociais, um casal de idosos afirma que estava ali para impedir a promulgação de uma lei que permitiria que āpai se cassasse com filha e adulto com crianƧasā. Em outro, uma mulher na casa dos 30 ou 40 anos diz que lutaria contra a ideologia de gĆŖnero nas escolas. Num terceiro, um homem na casa de seus 20 e tantos anos fala que estĆ” ali para acabar com o comunismo. Todos oscilavam entre a raiva dos seus ditos inimigos ā o āPTā, os ācomunistasā, etc. ā e o medo do que poderia acontecer se falhassem em sua missĆ£o āpelo Brasilā.
A raiva, a paranoia e o desespero que se via em muitos desses vĆdeos prĆ©-invasĆ£o nĆ£o sĆ£o acidente: sĆ£o sintoma de uma ação orquestrada, lĆ” atrĆ”s, no coração dos grupos intervencionistas, isto Ć©, dos defensores da ditadura militar, um dos berƧos originais do bolsonarismo. Um povo que comeƧou a se reunir, entre outras coisas, para conter os avanƧos da ComissĆ£o Nacional da Verdade.
NotĆcias falsas sobre a cobranƧa para pix transformaram grupos em vetores da propaganda terrorista.
Detalhe assustador e prova de que, ao contrÔrio do que muitos defendem, o bolsonarismo não representou qualquer moderação da extrema direita, mas sim a difusão e a normalização de suas teses mais radicais, inclusive, de sua vertente terrorista.
Hoje, o sujeito nĆ£o precisa mais participar de grupos intervencionistas para ser radicalizado. Agora, virtualmente todo grupo pode ser transformado em uma cĆ©lula extremista. As ideias chegam onde o indivĆduo estiver, seja no grupo do bairro, da igreja, de motoristas de aplicativo⦠E isso nĆ£o Ć© tudo. Elas chegam personalizadas, como se feitas sob medida para afetar os integrantes de cada um desses grupos. Adquirem, assim, um tom localizado.
Um exemplo: em grupos de pequenos empreendedores e de compra e venda, as notĆcias falsas que davam conta da cobranƧa de uma taxa para a realização de transferĆŖncias pix rapidamente transformaram esses espaƧos em vetores da propaganda terrorista. As pessoas estavam com raiva, tinham medo e gritavam impropĆ©rios contra o governo.
Esse Ć© justamente o projeto da mĆ”quina de desinformação montada pela extrema direita. Foi assim que ela construiu uma turbamulta raivosa onde pais, que afirmam estarem lutando pela seguranƧa de seus filhos, caminham ao lado de figuras religiosas que alegam estar em uma guerra santa e a pessoas que afirmam lutar contra a āditadura sanitĆ”riaā. Foi assim que ela constituiu a sua multidĆ£o revoltosa de terroristas dispostos a explodir caminhƵes, a ameaƧar e agredir figuras pĆŗblicas e a destruir prĆ©dios do governo.
Quem poderia prever o que aconteceu em BrasĆlia?
Absolutamente qualquer um que prestou atenção ao longo da última década.
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