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Terrorismo em Brasília é resultado de ação orquestrada hÔ anos

BRASILIA, BRAZIL - JANUARY 08: Supporters of former President Jair Bolsonaro clash with security forces as they raid governmental buildings in Brasilia, Brazil, 08 January 2023. Groups shouting slogans demanding intervention from the army broke through the police barrier and entered the Congress building, according to local media. Police intervened with tear gas to disperse pro-Bolsonaro protesters.  Bolsonaro supporters also managed to invade and ransack the National Congress, Planalto Palace, or President's office, and the Supreme Federal Court. (Photo by Joedson Alves/Anadolu Agency via Getty Images)

Foto: Joedson Alves/Anadolu Agency via Getty Images

8 de janeiro. Quem poderia prever o que aconteceu em Brasília? Quem poderia prever que a mÔquina de desinformação montada pela extrema direita brasileira seria capaz de mobilizar e coordenar milhares de pessoas em um verdadeiro ato de terrorismo? Quem poderia prever que eles, enfim, ultrapassariam os limites das redes sociais e de seus acampamentos golpistas após tantas ameaças?

Tem anos que grupos de extrema direita vĆŖm disseminando livremente a ideia de que a democracia Ć©, no fundo, um empecilho para a revolução conservadora que tanto almejam. Ora clamando por uma intervenção das ForƧas Armadas, ora afirmando que eles mesmos iriam ā€œucranizar o Brasilā€, uma referĆŖncia Ć  onda de protestos violentos ocorridos no paĆ­s europeu entre 2013 e 2014, que resultaram na ascensĆ£o de grupos neofascistas.

O próprio ex-presidente Jair Bolsonaro e seus filhos jamais se furtaram de estimular esse pensamento entre seus apoiadores. Muito, mas muito pelo contrĆ”rio. Em diversos momentos, Jair falou que poderia ser obrigado pela ação de seus opositores – leia-se, os limites constitucionais que lhe eram impostos pelo Supremo Tribunal Federal, o STF – a agir fora das ā€œquatro linhas da Constituiçãoā€. JĆ” Eduardo chegou a falar sem qualquer constrangimento que chegaria o momento em que seu pai seria obrigado a ā€œtomar uma medida enĆ©rgicaā€ contra seus opositores polĆ­ticos e que, nesse momento, ā€œele seria chamado de ditadorā€.

Enquanto isso, a mĆ”quina de desinformação da extrema direita seguia o seu rumo, alimentando diariamente com notĆ­cias falsas a revolta contra o ā€œsistemaā€, reiteradamente atestando a incapacidade do próprio Bolsonaro de superĆ”-lo. Sua derrota nas urnas em outubro, por exemplo, foi vista como a prova definitiva de que o ā€œsistemaā€ era corrupto na origem. O processo eleitoral, que sempre esteve na mira dessa mĆ”quina, era apenas um jogo de cartas marcadas, nas quais eles jamais venceriam. A conclusĆ£o Ć© óbvia: chegava o momento de ā€œtomar uma medida enĆ©rgicaā€.

8 de janeiro de 2023. Milhares de pessoas se dirigem a BrasĆ­lia. Em um vĆ­deo postado em suas redes sociais, um casal de idosos afirma que estava ali para impedir a promulgação de uma lei que permitiria que ā€œpai se cassasse com filha e adulto com crianƧasā€. Em outro, uma mulher na casa dos 30 ou 40 anos diz que lutaria contra a ideologia de gĆŖnero nas escolas. Num terceiro, um homem na casa de seus 20 e tantos anos fala que estĆ” ali para acabar com o comunismo. Todos oscilavam entre a raiva dos seus ditos inimigos – o ā€œPTā€, os ā€œcomunistasā€, etc. – e o medo do que poderia acontecer se falhassem em sua missĆ£o ā€œpelo Brasilā€.

A raiva, a paranoia e o desespero que se via em muitos desses vídeos pré-invasão não são acidente: são sintoma de uma ação orquestrada, lÔ atrÔs, no coração dos grupos intervencionistas, isto é, dos defensores da ditadura militar, um dos berços originais do bolsonarismo. Um povo que começou a se reunir, entre outras coisas, para conter os avanços da Comissão Nacional da Verdade.

Notƭcias falsas sobre a cobranƧa para pix transformaram grupos em vetores da propaganda terrorista.

Detalhe assustador e prova de que, ao contrÔrio do que muitos defendem, o bolsonarismo não representou qualquer moderação da extrema direita, mas sim a difusão e a normalização de suas teses mais radicais, inclusive, de sua vertente terrorista.

Hoje, o sujeito nĆ£o precisa mais participar de grupos intervencionistas para ser radicalizado. Agora, virtualmente todo grupo pode ser transformado em uma cĆ©lula extremista. As ideias chegam onde o indivĆ­duo estiver, seja no grupo do bairro, da igreja, de motoristas de aplicativo… E isso nĆ£o Ć© tudo. Elas chegam personalizadas, como se feitas sob medida para afetar os integrantes de cada um desses grupos. Adquirem, assim, um tom localizado.

Um exemplo: em grupos de pequenos empreendedores e de compra e venda, as notícias falsas que davam conta da cobrança de uma taxa para a realização de transferências pix rapidamente transformaram esses espaços em vetores da propaganda terrorista. As pessoas estavam com raiva, tinham medo e gritavam impropérios contra o governo.

Esse Ć© justamente o projeto da mĆ”quina de desinformação montada pela extrema direita. Foi assim que ela construiu uma turbamulta raivosa onde pais, que afirmam estarem lutando pela seguranƧa de seus filhos, caminham ao lado de figuras religiosas que alegam estar em uma guerra santa e a pessoas que afirmam lutar contra a ā€œditadura sanitĆ”riaā€. Foi assim que ela constituiu a sua multidĆ£o revoltosa de terroristas dispostos a explodir caminhƵes, a ameaƧar e agredir figuras pĆŗblicas e a destruir prĆ©dios do governo.

Quem poderia prever o que aconteceu em BrasĆ­lia?

Absolutamente qualquer um que prestou atenção ao longo da última década.

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