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JĆ” estĆ” claro que a tragĆ©dia vivida pelo povo Yanomami nĆ£o Ć© meramente fruto da omissĆ£o do governo Bolsonaro. Ć muito mais que isso. Ć consequĆŖncia da retomada de um projeto antigo das ForƧas Armadas que se iniciou nos primeiros anos da ditadura militar. Como bem lembrou Carla Jimenez na Ćŗltima newsletter do Intercept, āa ditadura militar foi pródiga em dizimar indĆgenas em nome do progressoā.
A Funai foi criada pelos militares trĆŖs anos após o golpe de 64 e foi comandada por militares guiados pelo lema da bandeira nacional: Ordem e Progresso. A polĆtica indigenista da ditadura tinha como objetivo integrar o indĆgena ao āmundo civilizadoā. Em 1970, durante o governo MĆ©dici, o regime militar comandou o Plano de Integração Nacional, com objetivo de expandir as fronteiras internas do paĆs, abrir rodovias e criar novas cidades. Para isso foi necessĆ”rio perseguir, prender, torturar e assassinar lideranƧas indĆgenas que lutavam pelos seus territórios. Em 1972, o general Ismarth de AraĆŗjo, superintendente da Funai, disse que āĆndio integrado Ć© aquele que se converte em mĆ£o de obraā. Os indĆgenas que se rebelaram contra esse projeto acabaram mortos.
O ex-capitĆ£o do ExĆ©rcito Jair Bolsonaro, que sempre foi reconhecidamente um deputado vagabundo, trabalhou bastante contra os povos indĆgenas ā especialmente contra o povo Yanomami ā durante sua passagem pelo parlamento. O entĆ£o deputado atuou incansavelmente pela extinção da etnia. Em 1992, ele apresentou um decreto legislativo que previa a extinção da reserva Yanomami, que tinha sido demarcada no ano anterior. O projeto foi arquivado, mas Bolsonaro tentou emplacĆ”-lo em outras quatro oportunidades. Em um dos seus discursos no plenĆ”rio em defesa do decreto, Jair Bolsonaro disse: āa cavalaria brasileira foi muito incompetente. Competente, sim, foi a cavalaria norte-americana, que dizimou seus Ćndios no passado e hoje em dia nĆ£o tem esse problema no paĆsā.
A ascensĆ£o do bolsonarismo ao poder possibilitou a continuação desse projeto militar. Assim como na ditadura, a polĆtica indigenista do governo Bolsonaro oferece duas opƧƵes aos povos indĆgenas: a integração forƧada ou a extinção. As cenas de homens, mulheres e crianƧas Yanomami subnutridos, com os ossos do corpo inteiro aparecendo, retrata o sucesso da retomada desse projeto. A desnutrição e a fome sĆ£o consequĆŖncia direta da ocupação de seus territórios por garimpeiros ilegais. A garimpagem na regiĆ£o impede o povo Yanomami de exercer suas atividades produtivas bĆ”sicas.
NĆ£o me recordo de uma tragĆ©dia mais anunciada do que essa. Durante os Ćŗltimos quatro anos, o avanƧo do garimpo ilegal e a saĆŗde dos povos indĆgenas foram assuntos de destaque no debate pĆŗblico nacional. Reportagens e órgĆ£os pĆŗblicos como o MinistĆ©rio PĆŗblico Federal, o STF e a Corte Interamericana de Direitos Humanos alertaram sobre a gravidade da situação. Desde o primeiro ano de governo Bolsonaro, o MPF fez pelo menos oito recomendaƧƵes relacionadas Ć falta de atenção bĆ”sica de saĆŗde nas terras Yanomami.
Deputada Joênia Wapichana e Dario Yanomami em reunião com o Vice-Presidente Hamilton Mourão.
Foto: Divulgação/Planalto
Em 2020, o MPF fez o primeiro alerta ao governo sobre a fome dos Yanomami em Roraima. O órgĆ£o determinou que a Sesai, a Secretaria Especial da SaĆŗde IndĆgena, deveria providenciar a compra de alimentos para abastecer a comunidade. Absolutamente nada foi feito. Claro, durante o governo Bolsonaro a Sesai serviu ao projeto iniciado no regime militar. Nesse perĆodo, ela foi comandada por militares sem nenhuma experiĆŖncia em saĆŗde indĆgena. O primeiro a assumir a pasta foi o coronel do ExĆ©rcito Robson Santos da Silva. Depois, foi a vez de outro coronel: Reginaldo Ramos Machado, amigo pessoal de Jair Bolsonaro. Ambos comandaram a destruição da estrutura de atendimento da pasta. Cargos e departamentos importantes do órgĆ£o foram encerrados. Mecanismos de controle e participação social como os Conselhos Distritais de SaĆŗde IndĆgena (Condisi) e o Conselho Nacional de PolĆtica Indigenista (CNPI) foram extintos. A fome dos Yanomami Ć© resultado de uma polĆtica muito bem planejada pelas ForƧas Armadas e pelo governo Bolsonaro.
A garimpagem na região impede o povo Yanomami de exercer suas atividades produtivas bÔsicas.
As digitais dos militares estĆ£o impregnadas em todos os pontos da tragĆ©dia vivida pelos Yanomami. O ex-vice-presidente e hoje senador Hamilton MourĆ£o presidiu por trĆŖs anos o Conselho Nacional da AmazĆ“nia Legal. O general nĆ£o convidou ninguĆ©m da Funai e do Ibama para integrar o conselho. Escolheu 19 militares da sua confianƧa. A função desse conselho Ć© prestar assistĆŖncia aos povos indĆgenas da regiĆ£o, mas MourĆ£o e os militares fingiram nĆ£o ver o descalabro. Em entrevista ao Jornal da Globo, a lideranƧa DĆ”rio Kopenawa contou que conversou pessoalmente com MourĆ£o em julho de 2020. A principal reivindicação foi a retirada dos garimpos ilegais de ouro instalados no território indĆgena. O garimpo nessa regiĆ£o Ć© comandado maciƧamente por empresas clandestinas ligadas ao contrabando e ao crime organizado. General MourĆ£o ouviu o pedido dos Yanomami, publicou foto com Kopenawa e nĆ£o tomou absolutamente nenhuma providĆŖncia.
A reivindicação nĆ£o foi atendida, pelo contrĆ”rio. Os militares bolsonaristas atuaram para legalizar a garimpagem no território dos Yanimami. No fim do governo Bolsonaro, antes de apagar as luzes, o general da reserva Augusto General Heleno, ex-ministro do Gabinete de SeguranƧa Institucional, o GSI, autorizou o garimpo de ouro em Ć”rea próxima Ć Terra IndĆgena Yanomami.
A pessoa agraciada com a autorização Ć© uma garimpeira que jĆ” cumpriu pena por trĆ”fico de drogas e jĆ” foi acusada pelo MinistĆ©rio PĆŗblico por receptação de pneus roubados. Essa Ć© a polĆtica da āordem e progressoā beneficiando diretamente uma garimpeira com histórico de envolvimento com o crime em detrimento da saĆŗde de povos indĆgenas. Trata-se de um episódio bastante representativo da hipocrisia que integra a essĆŖncia do bolsonarismo.
NĆ£o Ć© que os militares simplesmente permitiram a garimpagem em Ć”rea indĆgenas. Eles atuaram em conluio com os garimpeiros. Militares do SĆ©timo BatalhĆ£o de Infantaria da Selva por exemplo, chegaram a ter um grupo de WhatsApp com garimpeiros da regiĆ£o Yanomami para poder avisĆ”-los sobre eventuais aƧƵes desencadeadas ali. Esse Ć© apenas um exemplo. HĆ” uma pororoca de outros que mostram como os ataques dos militares contra os povos indĆgenas. Vejamos algumas manchetes que pipocaram no noticiĆ”rio nos Ćŗltimos tempos: āMilitares que dirigiram Ibama ignoraram plano de socorro a povo Yanomamiā;
āEm Ć”udio, militares na Funai prometem atropelar Ibama e liberar garimpo em terras indĆgenasā; āRelatório aponta militares comprados pelo garimpo na TI Yanomami no inĆcio da gestĆ£o Bolsonaroā; āTenente do ExĆ©rcito, coordenador da Funai fala em āmeter fogoā em Ćndios isolados no AMā; āNa cidade mais indĆgena do Brasil, ExĆ©rcito ocupa e domina vida civilā; āMilitar da Funai Ć© acusado de desviar patrimĆ“nio de indĆgenas Muraā; āMilitares arrendam ilegalmente terras indĆgenas para latifundiĆ”riosā.
NĆ£o Ć© que os militares simplesmente permitiram a garimpagem em Ć”rea indĆgenas. Eles atuaram em conluio com os garimpeiros.
A ministra dos Povos IndĆgenas SĆ“nia Guajajara iniciou uma desmilitarização da Funai. JĆ” foram demitidos 43 militares que boicotavam a proteção dos povos indĆgenas. Esse Ć© o comeƧo de um longo processo necessĆ”rio para reconstruir o órgĆ£o. Ć urgente que o paĆs puna severamente os militares e todos aqueles que encamparam esse projeto de dizimação dos povos indĆgenas desenhado durante a ditadura militar. Trata-se de um crime de lesa humanidade. As ForƧas Armadas precisam ser enquadradas para que nĆ£o tentem retomar esse projeto no futuro. NĆ£o Ć© possĆvel mais ver uma importante instituição da democracia brasileira trabalhando diretamente pela destruição dos povos originĆ”rios, enquanto atua em conluio com garimpeiros, golpistas e terroristas.
Ć preciso que fique claro que o genocĆdio sofrido pelos Yanomami nĆ£o foi um mero caso de incompetĆŖncia e omissĆ£o de um governo, mas um projeto de governo dos militares.
The post Bolsonaro recuperou projeto da ditadura militar contra os Yanomami: mão de obra ou extinção appeared first on The Intercept.
