Uma crianƧa de 12 anos, grĆ”vida pela segunda vez em um ano após vĆ”rios estupros, estĆ” sendo mantida em um abrigo em Teresina hĆ” quatro meses. Ela deixou claro que queria o aborto legal ao ser levada ao hospital, com cerca de 12 semanas de gestação, mas foi liberada sem fazer o procedimento. Hoje, a menina estĆ” com o filho de 1 ano no colo e com cerca de 28 semanas de gravidez ā segundo uma conselheira tutelar, ela teria tentado suicĆdio.
Documentos assinados pela Defensoria PĆŗblica do Estado do PiauĆ a que o Catarinas e o Intercept tiveram acesso revelam que a juĆza Maria Luiza de Moura Mello e Freitas, da 1ĀŖ Vara de InfĆ¢ncia e Juventude de Teresina, nomeou uma defensora pĆŗblica para representar os interesses do feto em 6 de outubro do ano passado, a pedido da defensoria. No dia seguinte, a magistrada ainda proibiu a publicação de notĆcias sobre o caso no estado, respondendo a um pedido da defensoria. Freitas pediu afastamento do caso na mesma semana.
A nomeação de um curador para o ānascituroā estĆ” prevista no Estatuto do Nascituro, projeto de lei proposto por deputados conservadores que quase entrou na pauta de votação na CĆ¢mara no final do ano passado. Discutido hĆ” mais de 15 anos, o estatuto tornaria o aborto ilegal atĆ© em casos de estupro de crianƧas. AlĆ©m de nĆ£o estar em vigor, o estatuto nĆ£o tem base legal diante da Constituição e do Código de Processo Civil, que asseguram que apenas as pessoas nascidas com vida podem ter direitos e deveres plenos na sociedade.
āA defensoria nĆ£o estĆ” atuando na proteção da crianƧa, cumprindo o Estatuto da CrianƧa e do Adolescente, e estĆ” criando essa anomaliaā, criticou a advogada Beatriz Galli, do ComitĆŖ Latino-Americano e do Caribe para a Defesa dos Direitos das Mulheres, uma das 10 organizaƧƵes que denunciaram o caso Ć ComissĆ£o Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos, a CIDH. āA gente nĆ£o tem previsto que o direito Ć vida comeƧa desde a concepção e que o nascituro teria os mesmos direitos de uma crianƧa nascida. Ć bastante preocupante esse precedenteā.
Ainda que nĆ£o seja requisito legal para a realização do procedimento, jĆ” que o aborto em casos de estupro e risco Ć vida da mĆ£e jĆ” Ć© permitido pela lei brasileira, um alvarĆ” autorizando o procedimentoĀ foi expedido em 28 de outubro pela juĆza Elfrida Costa Belleza, da 2ĀŖ Vara da InfĆ¢ncia e da Juventude de Teresina. A decisĆ£o, porĆ©m, foi suspensa pelo desembargador JosĆ© James Gomes Pereira, em 12 de dezembro, a pedido da mĆ£e da menina e da defensora do feto. āO direito estĆ” previsto no Código Penal desde 1940, entĆ£o nĆ£o tem como ser revogado com uma sentenƧa judicialā, explicou Galli.
Mesmo ciente de que a gravidez da menina Ć© decorrente de estupro e oferece risco Ć sua vida, o desembargador argumentou contra o aborto ao revogar a autorização para o procedimento. āUma intervenção mĆ©dica destinada Ć retirada do feto do Ćŗtero materno pode representar riscos ainda maiores tanto Ć vida da paciente quanto Ć da crianƧa em gestação (que, a meu ver, jĆ” atingiu formação suficiente para eventual sobrevida após o nascimento)ā, escreveu Pereira. āUma intervenção mĆ©dica, a esta altura, corresponderia a um verdadeiro parto, nĆ£o havendo como se autorizar a realização do abortoā.
Na decisĆ£o, Pereira citou um relatório psicológico que apontou que a menina consentiu em manter a gravidez para entregar o recĆ©m-nascido para adoção. āA vĆtima mostrou-se equilibrada emocionalmente apresentando uma linguagem clara, objetiva e colaborativa. Durante o atendimento a adolescente relatou o desejo de continuidade da gravidez e de entregar a crianƧa para adoção, trazendo a fala: āNĆ£o quero abortarā e que a ideia de abortar a crianƧa traz muito sofrimentoā.
āEla estava abraƧada com uma boneca, se balanƧando de cabeƧa baixa. Pouco ou nada ouvia do que faleiā.
TrĆŖs pessoas ligadas ao caso, no entanto, contestam o argumento e afirmam que a menina estĆ” abalada psicologicamente. Em 14 de setembro, após a constatação de que ela sofria estupros recorrentes, a crianƧa foi acolhida no abrigo, onde passou a ser medicada, segundo a conselheira tutelar Renata Bezerra. āPercebi que a menina estava sendo dopada e questionei por que ela estava tomando medicação. As funcionĆ”rias responderam que ela havia tentado se matar. Eu perguntei Ć menina, e ela disse que nĆ£o sabia por que estava tomando a medicaçãoā, me contou a conselheira.
A advogada JĆ©ssica Lima Rocha, membro da ComissĆ£o de Direitos Humanos da OAB do PiauĆ, tambĆ©m disse ter encontrado uma situação de estresse ao ir atĆ© o abrigo conversar com a menina. āEssa crianƧa estava abraƧada com uma boneca, se balanƧando de cabeƧa para baixo. Pouco ou nada ouvia do que eu falei ou do que eu tentei falarā.
Segundo o presidente do Conselho Municipal da CrianƧa e do Adolescente, AndrĆ© Santos, a menina teve uma crise de ansiedade ao saber que os pais nĆ£o aprovaram o aborto e precisou de medicação. āEla trata o bebĆŖ [filho de 1 ano] como boneca, isso choca a gente. SĆ£o tantos direitos violados, Ć© um crime institucional. O JudiciĆ”rio nĆ£o fala, a Secretaria de SaĆŗde nĆ£o fala, ninguĆ©m fala sobre a situação, porque querem esconder a omissĆ£o do estado. Quem estĆ” sendo prejudicada Ć© a crianƧa, que tem prioridade absolutaā, afirmou.
Os relatos sobre o estado da menina sĆ£o contemplados na denĆŗncia feita Ć CIDH. Nela, afirma-se que hĆ” āevidĆŖncias de automutilação e outros sintomas de efeitos na saĆŗde mental da menina, sem clareza quanto ao atendimento mĆ©dico recebidoā. Segundo a conselheira tutelar Renata Bezerra, a crianƧa precisou ser medicada para ansiedade por algumas semanas, mas jĆ” parou de tomar os remĆ©dios.
Procurada, a assessoria de comunicação do Tribunal de JustiƧa do Estado do PiauĆ informou que nĆ£o se manifesta sobre o teor das decisƵes dos juĆzes ou desembargadores, ressaltando que, segundo a Lei OrgĆ¢nica da Magistratura Nacional, os profissionais devem se manifestar apenas nos autos processuais.
Bichinho de pelúcia seca no quintal da criança sobrevivente de estupro.
Foto: Renato Andrade/Folhapress
Suspeita de exploração sexual
Na última sexta-feira, dia 20, dois suspeitos de estuprarem a criança foram presos preventivamente. Um deles é o tio da menina, apontado pelo exame de DNA como responsÔvel pela primeira gravidez. O segundo preso é um vizinho da avó paterna da menina.
Com ou sem o aborto, a polĆcia irĆ” recolher o material genĆ©tico necessĆ”rio para cruzar com o dos acusados, que negam o crime. āOs presos podem ser pais da crianƧa da segunda gravidez ou nĆ£o, mas que eles estupraram a vĆtima, isso Ć© certo. Caso nĆ£o seja um desses dois acusados, significa que houve um terceiroā, me afirmou a delegada responsĆ”vel.
A menina mora na zona rural de Teresina com a avó paterna, o tio e o pai āĀ que, segundo a delegada, estĆ” afastado da mĆ£e em cumprimento a uma medida protetiva por ter praticado violĆŖncia domĆ©stica contra ela. āA vĆtima morava dentro do covil. NĆ£o estou acusando a avó, mas era muito cĆ“modo para o acusado ficar ali. E a famĆlia, embora suspeitasse, nĆ£o denunciava, porque todo mundo ali era parente. Foi preciso a vĆtima engravidar novamente para virem Ć tona todos os abusosā.
Na avaliação da delegada, hĆ” sinais de exploração sexual pelo grau de vulnerabilidade social e econĆ“mica que contextualiza os frequentes abusos. āUma vĆtima vulnerĆ”vel socialmente, sem teto, porque morava na casa da avó, nĆ£o havia sustento para ela, vira presa fĆ”cil. āTe dou um pacote de leiteā, e ali, ela muita nova, jĆ” com um filho no colo, vocĆŖ imagina a dificuldadeā, presumiu Vidal.
MƩdicos teriam tentado barrar aborto
Quando chegou ao hospital acompanhada da conselheira tutelar, em 9 de setembro, a menina expressou o desejo de interromper a gravidez porque queria voltar a estudar. Ela, que completou 12 anos trĆŖs dias depois, deixou a escola no quinto ano para cuidar do primeiro filho, fruto de outro estupro.
āNa hora que [o teste de gravidez] deu positivo, ela falou: āTia, me tira dessa situação, como eu faƧo para sair dessa situação?ā Eu falei com a mĆ©dica, e ela disse: āVocĆŖ sabe que existe aborto legal? Basta a vĆtima ou um dos membros da famĆlia querer, ou o pai ou a mĆ£eā. Quando eu mandei buscar o pai, a mĆ©dica mudou de ideia e disse que a menina teria que passar por sessƵes com uma psicóloga, com nĆ£o sei quem, para fazer tudo legalā, relatou a conselheira.
Em conversa com o Catarinas e o Intercept, a mĆ£e da menina afirmou que desistiu de autorizar o aborto por conta da fala de uma mĆ©dica da Maternidade Dona Evangelina Rosa. āA mĆ©dica do serviƧo falou para nós que, se ela abortasse essa crianƧa, poderia morrer no procedimentoā, disse a mĆ£e, que estĆ” convencida a entregar o bebĆŖ Ć adoção após o nascimento. āA gente optou por continuar com a gravidez para nĆ£o acontecer o pior com elaā.
Em 3 de novembro, após a autorização para o aborto ser derrubada, o defensor que representa a menina e seu pai teve uma conversa presencial com ele, que reiterou a decisĆ£o de realizar o aborto. No mesmo dia, por meio de videochamada āinformalā, segundo o defensor apontou em documento a que tivemos acesso, a crianƧa manifestou ao pai e ao defensor o desejo de interromper a gestação.
āTem muita gente envolvida para que ela continue com a gravidezā.
Acionado pelo defensor, o promotor Thiago Belchior ficou responsĆ”vel por conduzir a menina ao Atendimento Ć s Mulheres VĆtimas de ViolĆŖncia Sexual para realização do aborto. Mas, em 8 de novembro, ela teria manifestado uma mudanƧa de opiniĆ£o na presenƧa de pessoas do abrigo e de Belchior. āAcreditamos que o caso foi solucionado, uma vez que a juĆza proferiu sentenƧa, contudo, a vontade da adolescente modificou, e, a gravidez nĆ£o foi interrompidaā, escreveu o defensor pĆŗblico em documento a que tivemos acesso.
O pai me contou que foi persuadido a assinar um documento desautorizando o procedimento ā e que a mĆ©dica que atendeu a menina teria ido ao abrigo para convencĆŖ-la a desistir do aborto. āA mĆ©dica me induziu, dizendo que a menina [jĆ”] tinha um filho, que se ela aguentou, poderia ter outroā, comentou. āDepois que falaram com ela, ela disse: āNĆ£o, papai, eu vou ter o bebĆŖā. No inĆcio, ela disse que nĆ£o queria a gravidez, que queria estudar. AĆ passou dois meses, trĆŖs meses, cinco meses. Tem muita gente envolvida para que ela continue com a gravidezā.
A casa onde a menina vivia em Teresina antes de ser estuprada.
Foto: Renato Andrade/Folhapress
A advogada JĆ©ssica Lima Rocha ainda suspeita que a igreja tambĆ©m pode ter tido um papel na mudanƧa da vontade da menina. āEsse abrigo Ć© católico, cuidado por freiras. E, obviamente, a gente jĆ” compreende: nĆ£o dĆ” pra ter um caso desse sendo acolhido por um abrigo religiosoā.
Desde que o caso veio a público, organizações da sociedade civil tentam garantir o direito da menina ao aborto, cobrando respostas oficiais dos órgãos do estado. Diante da falta de ação, em 3 de dezembro, foi feita uma comunicação ao Ministério Público Federal denunciando o contexto das violações institucionais. Entramos em contato com o MPF para saber do andamento do caso, mas não obtivemos resposta até o fechamento da reportagem.
Procurado, o MinistĆ©rio PĆŗblico do PiauĆ informou que a āeventual coação dos mĆ©dicosā estĆ” sendo analisada pela Promotoria da SaĆŗde, e āestĆ£o sendo adotadas as providĆŖncias cabĆveis para assegurar Ć adolescente a garantia da manifestação de sua vontade, bem como todas as outras medidas de proteção previstas no ECAā, referindo-se ao Estatuto da CrianƧa e do Adolescente.
A assessoria de imprensa da Maternidade Evangelina Rosa afirmou que qualquer posicionamento partiria da Secretaria de SaĆŗde do Estado. Por sua vez, a Sesapi afirmou estar ācolaborando com o caso, que corre em segredo de justiƧa, e darĆ” uma resposta definitiva assim que concluir toda a anĆ”lise mĆ©dica e jurĆdicaā.
JĆ” a Defensoria PĆŗblica do Estado do PiauĆ assegurou atender a menina desde que foi informada sobre o caso e ter conseguido uma decisĆ£o judicial determinando a realização do aborto. āApós recurso, houve decisĆ£o da magistrada mantendo a decisĆ£o que determinou a interrupção [da gravidez], procedimento que nĆ£o foi realizado pelo serviƧo mĆ©dicoā, comunicou. A instituição afirmou ainda que a nomeação de uma defensora exclusiva para o feto āaconteceu no trĆ¢mite processual, com o deferimento do JuĆzo de pedido em audiĆŖnciaā.
O órgĆ£o se esquivou do pedido que fez Ć justiƧa para que o caso nĆ£o fosse coberto por veĆculos de imprensa, resumindo-se a dizer ser notório que, āem regra, o processo deve ser pĆŗblico para quem nĆ£o faz parte dele, porĆ©m existem hipóteses constitucionais e legais de mitigação desta publicidadeā.
Colaboração: Daniela Valenga, Jess Carvalho e Kelly Ribeiro.
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